sábado, 28 de maio de 2011

Esta Celeuma em Torno de Monteiro Lobato

Monteiro Lobato (1882-1948), maior nome da literatura infantil e juvenil latinoamericana, vem sendo constantemente citado na grande imprensa (e outros meios como o político e o educacional) como RACISTA.

Para quantos de nós travaram seu primeiro contato com a literatura através deste fecundo autor, a impressão que ficou – de anos ou até décadas de “relacionamento” – é profundamente diversa.

Senão vejamos. 

No Sítio do Picapau Amarelo, vive-se entre a utopia e o conto-de-fadas, em um mundo em que as características de cada personagem contribuem tanto para o colorido da obra tanto quanto para sua mensagem subversiva. No Sítio todos são confrontados com a imagem que têm de si mesmos; examinam a fundo os vieses demográficos, “raciais” e culturais que os fazem quem são; são convidados a exercer o pensamento crítico e a não engolirem nenhuma informação “com farinha”.

Dona Benta vê seu mundo virar de pernas para o ar quando tudo à sua volta parece ganhar vida – sabugos, bonecas, porcos, burros, besouros; figuras históricas, folclóricas e mitológicas; personagens de histórias em quadrinhos e das histórias da Carochinha – e ali permanece incólume, quase blasé, em sua louca mistura de racionalismo filosófico e amor de avó que tudo abraça, compreende e acolhe.

Narizinho e Pedrinho, descartada sua baixa idade, são crianças a quem é dado o direito de serem crianças; o direito de viverem suas fantasias sem serem julgadas, e sim esclarecidas e protegidas; a oportunidade de refletirem sobre os acontecimentos históricos sem se deixar levar por desvãos ideológicos e modas passageiras.

Lobato, homem de seu tempo, descreve-o com precisão através de suas personagens – caricaturais, representativos, arquetípicos. Há um perfume de despedida e melancolia em seu texto, no entanto, como que a antecipar o fim de uma era, o ocaso de modos de pensar e viver que seriam varridos pelas conquistas tecnológicas do século XX que se estendia, promissor e ainda pela metade, pela frente. E há, mesmo na presença de termos hoje considerados “politicamente incorretos”, verdadeira preocupação documental e muita empatia no retratar: do preto-velho supersticioso e sábio (Tio Barnabé), da cozinheira inculta, fiel depositária do imaginário popular (Tia Nastácia), da solitária sinhá e seus modos aristocráticos (Dona Benta), do sábio empertigado e fútil (Visconde), encastelado nas imensas alturas de seu conhecimento; da malemolência dos empregados e matutos (que só vez por outra ganham nomes na narrativa); na falta de reação dos moradores do Arraial dos Tucanos - que viram “de tudo” naqueles anos.

E há Emília, filha bastarda dos loucos anos vinte e sua gana iconoclástica por liberdade – personagem impossível de acontecer fosse Lobato o reaça que nois é agora imposto goela abaixo por sectaristas de ocasião. Verdadeira pedra angular de toda a filosofia lobatiana, a boneca de pano põe em xeque todo conhecimento filosófico, científico e cultural estabelecidos, distendendo os limites do autor para tornar sua obra transcendente ao próprio tempo em que ela foi concebida e escrita. É Emília quem tem sempre um “por quê”, um “por que não”; quem diz que “as coisas são assim porque ela quer que sejam assim”, e tantos outros disparates mais tarde encampados pela vida moderna.

Emília é a santa padroeira da transgressão saudável, da experimentação no limite da responsabilidade, da impossibilidade transmutada em gente (ou quase). Poderia ter sido melhor explorada por modernosos e tropicalistas, que obtusamente não enxergaram seu potencial demolidor. Ou nos ajudar, agora, a falar em defesa de seu criador.

Pois nós que também fomos seus filhos renegamos veementemente a pecha de racista, ou qualquer outro “ismo” que se queira colar à sua figura, simultaneamente formadora e libertária. Nós, que lemos Lobato na mais tenra infância, que absorvemos através de sua literatura muito da brasilidade que hoje entendemos como inata, que tivemos nossos cérebros em formação esculpidos por Emília, somos melhores por isso. Passamos pela escola sem acreditar em qualquer coisa que nos falassem, pela vida sem julgar por desconhecer, pelos caminhos do espírito sem descrer pelo inusitado ou crer só porque é lógico.

Monteiro Lobato foi, sim, extremamente crítico de um país que patinava na miséria e na corrupção. Seu Jeca Tatu, revisto ainda em vida e depois maneirado (quase em oposição a seu retrato original), polido de arestas espetaculosas e visões maniqueístas, foi tentativa marcante, ainda que moderadamente equivocada, de entender os motivos de tanta coisa dar errado por aqui. Sua luta pelos livros e pelo petróleo, utopias que lhe custaram parte do sossego, da saúde, e até de sua liberdade; hoje podem parecer exageradas, dantescas, mas assim como o Jeca, tiveram sua hora, seu lugar e razões de ser.

Sua admiração pelos EUA e pelo capitalismo producente e industrial da primeira metade do século XX, ou sua “quedinha” pelas esquerdas ao final da vida, quando travava luta inglória contra o Estado Novo, mostram um nacionalista, convicto, tentando lutar o bom combate, pinçando aqui e ali o melhor de várias experiências e opondo-se, sempre, ao terror de Estado. Seu interesse pela eugenia, ou suas considerações nem sempre benevolentes sobre as características dos povos deste ou de outro rincão do Brasil, mostram, contudo, a espessura de sua “cota de malha”: o emaranhado de vieses culturais dos quais, até aos gênios e intelectuais, pode ser difícil se despir.  

As cartas publicadas na Bravo são cartas pessoais, escritas em um período em que as ideologias explodiam como supernovas em um mundo em constante ebulição, mantidas em sigilo por tanto tempo, e que agora aparecem sem que sejam citadas as suas origens, ou a intenção de quem as dá a conhecer. Os excertos publicados pela Revista Bravo são citados fora de qualquer contexto, sem o apoio de um texto completo onde façam sentido; mesmo os fac-similes exibidos na internet estão censurados, não podendo, desta forma, serem sequer analisados mais aprofundadamente. O que um homem diz a um interlocutor em uma missiva privada às vezes pode ser bem diferente do que ele costumeiramente fala e defende, sem que isto signifique uma opinião consolidada, lustrada e pronta para vir a público, ou até mesmo existirem apenas como desabafo

Em um universo de milhares de páginas escritas, lidas e relidas milhares de vezes por dia em boa parte do mundo, parece-me muito suspeita a insistência no tema deste suposto racismo de Lobato em um ano em que a indústria cultural corre atrás do prejuízo (décadas de descaso com a obra por divergências entre a família e a editora) no exíguo prazo que expira em 2018, quando tudo que ele escreveu passa a ser de domínio público. Como dizem meus alunos militantes, por ora fica difícil adivinhar qual é o pensamento hegemônico.

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