domingo, 10 de abril de 2011

Sérgio Bianchi: um cineasta imprescindível e seu melhor filme

Depois de filmes marcantes, mas algo esquemáticos ou simplistas em sua postura ultra-crítica, meu primo Sérgio Bianchi parece ter acertado o tom: “Os Inquilinos”, em cartaz no Canal Brasil, é de longe seu melhor filme.

Seco, enxuto, direto e muito bem editado e finalizado; contando uma história que começa propositalmente tímida e cresce em profundidade e tensão até o clímax vigoroso e bem executado, o filme merece bem mais atenção do que recebeu de crítica e público desde seu lançamento.

Motivos para isto? Posso dar três.

Para começo de história se trata de um thriller, estilo pouco comum no cinema brasileiro. E umthriller que funciona ao estabelecer-se devagar, revogando e reiterando, a um só tempo, os clichês do gênero – coisa que a trilha sonora incidental, perfeitamente adequada, só faz corroborar.

É cinema-verdade, como me parece que o Sérgio sempre objetivou fazer, hábil que é em retratar o cotidiano compatriota de maneira quase fotográfica, colocando-nos dentro da casa (e da cabeça, e se precisar de outros locais menos nobres) de brasileiros comuns, que levam vidas comuns e sem graça - o exato oposto do que se poderia esperar de um cinema de entretenimento.

E é mais do mesmo, no melhor sentido da coisa, mais do melhor e do pior que só o Bianchi faz no país, com o dedo (e a câmera) enfiado nas feridas abertas de uma sociedade em eterna crise demagógica. É um cinema, mais que útil, necessário, honesto e cruel, que dá orgulho de ser brasileiro tão somente porque temos alguém que filma assim, sem meias palavras, sem querer agradar a ninguém; ofendendo, se for preciso, a tudo e a todos com sua argúcia crítica demolidora.

“Os Inquilinos”, tendo a São Paulo dos eventos teleguiados pelo PCC como pano de fundo (em 2001? Em 2006?), explicita como a violência se instala no cotidiano de pessoas pacatas e trabalhadoras, contaminando suas mentes e corações e tornando (cronicamente) inviável uma volta a estados anteriores de “pureza” ou “paz”. Mostra, em parte, como somos todos convidados pelo sistema a aceitar a violência e a corrupção (e o que mais nos puserem goela abaixo), a tratar com elas, até mesmo usá-las em benefício próprio, como reflexo do hedonismo e individualismo onipresentes. Apesar disto, o roteiro impecável do diretor (em parceria com Beatriz Bracher) jamais escorrega para o panfletário, possibilitando que diálogos de natureza política, com forte cunho social, façam parte da trama e enriqueçam o conhecimento das personagens – ou seja, todas as filosofadas, desta vez, estão a serviço da história.

Parabéns, primo – se é que posso lhe chamar assim, visto que na verdade meu avô é que era primo de seu pai. 

Cresci sendo fotografado por este, o ícone da fotografia paranaense Rauly Bianchi, no extinto estúdio da Rua Sete de Setembro em Ponta Grossa. Quanto a você, acompanho sua trajetória desde que corri para assistir “Romance” em uma tarde chuvosa no Cine Ritz, ali na Rua das Flores, idos de 1988, e confesso que jamais fiquei imune à sua verve e inteligência. Mas desta vez posso afirmar, sem nenhum nepotismo, que seu filme me pegou na veia. Vai direto para a lista de meus favoritos.


Leia mais em:

http://www.omelete.com.br/cinema/critica-os-inquilinos/

http://oglobo.globo.com/cultura/festivaldoRio2009/mat/2009/09/30/os-inquilinos-critica-de-sergio-bianchi-intolerancia-surge-como-1-candidato-melhor-roteiro-767843820.asp

http://www.adorocinema.com/filmes/os-inquilinos/

http://cinefilosofia.wordpress.com/category/sergio-bianchi/

http://pt.wikipedia.org/wiki/S%C3%A9rgio_Bianchi

http://www.imdb.com/title/tt1522232/

sábado, 2 de abril de 2011

"Sabão de Cinza e Charque", por Jacobus van Wilpe

Fregueses da Colônia são bem atendidos por nós: pelo mesmo preço podem escolher o que querem. Carne é carne – mignon, bife, bochecha e pescoço vão pelo mesmo preço para o charque (...)

Damos pedacinhos de fígado e rim, de presente. Estas glândulas não servem para o charque, porque mesmo salgados e secos ainda ficam, de maneira um pouco nojenta, úmidos e pegajosos.

Para os colonizadores e o pessoal da redondeza, a charqueada é positivamente uma bênção. As pessoas são melhor atendidas por nós que na mais fina loja de Haia. Os granjeiros, ultimamente, tem aparência mais saudável e reforçada que durante a era do doce de abóbora e mingau de leitelho azedo. É bem compreensível que quando abatemos muito há mais rabos e línguas que lares na Colônia. Aliás, rabadas também são proibidas como charque, além do mais são difíceis demais de desossar e seriam reconhecidas imediatamente. (...)

Igualmente a enorme quantidade de ossos de mocotó para sopa não consegue ser consumido pela Colônia. Esqueletos completos, chamados por aqui de madeirames, são vendidos aos caboclos e turmeiros da vizinhança.

Os ossos são picados bem pequenos e fervidos em grandes tachos e latas de querosene. A gordura é retirada, e conforme uma receita antiga, com cinzas em lugar de soda, transformada em cheiroso sabão de cinza. (...)

(...) Depois da receita do sabão de cinza, a do charque.

A carne é cortada em longas finas tiras; permanece alguns dias em um recipiente com salmoura; depois é bem esfregada com sal e empilhada solidamente. Após alguns dias é examinada minuciosamente à procura de eventuais manchinhas ou vermes e como último testamento é secada em armações especiais sobre a cerca da mangueira.

Tudo junto é uma história salgada com a qual nossas mãos saem muito judiadas. Por esfregar muito sal para preparar a carne, formam-se estranhas manchas brancas sob a nossa pele. Secadas ao sol assemelham-se vagamente ao nosso produto. No Farwest, chamar-me-iam “Old Charqueman”.

Sem perceber, publico aqui duas velhas receitas interessantes.

(“No Comércio III – O Matadouro, 1926”, no livro “Lembranças  da Juventude” de Jacobus van Wilpe, 1905-1986)



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No final de semana do Centenário de Carambeí, minha homenagem aos pioneiros e antepassados.

FOTO: Loja Batavo na Avenida Vicente Machado, em Ponta Grossa, anos 1940. Ao centro, o patriarca Jan Hendrik van Wilpe.