Somos todos privilegiados, dizia meu primo em frente ao túmulo de minha avó Aryclé, em Curitiba - compartilhado por seus pais, meus bisavós, com quem também tive o prazer de conviver, especialmente a bisa Ester.
De maneira muito concisa e profunda, o Zé resumia sua teoria, nascida da expressão dos fatos corriqueiros de sua própria vida, dos caminhos percorridos, da presença dos filhos em volta em um dia que poderia ser só triste, em que perderamos mais um de nossos velhinhos para a eternidade:
Nós temos tanto, dizia ele, grato sem dizer a quem, por óbvio, sejam lá quais suas crenças.
E depois viraríamos nada, emendaria eu, olhos postos no pequeno mausoléu caiado que faz frente ao espaço de meus antepassados, onde duas moças me sorriem, em fotos nada esmaecidas que não fazem jus às datas esculpidas na pedra: 1899, 1879.
Pois justamente, retrucaria o primo, por isto mesmo a gente deve tentar viver bem - sem precisar me explicar, por de antemão entendido que não se falava de posses ou luxos, mas de um viver bem o momento, os seus, e as suas (burradas, manias, qualidades).
Das fotos antigas, impressas diretamente no suporte sólido das lápides, olhares atentos, de sorriso púdico continuam a espiar dentre camisas bordadas e cabelos artistica e meticulosamente esculpidos, exibindo em seus colos os camafeus.
Porque tudo passa, não é? Veja essas moças, há tanto tempo idas deste mundo, o que viram, será? Ninguém jamais saberá. E no entanto hoje, quem as visita, quem ainda as lembra? Lá em Ponta Grossa, no São José, vê-se verdadeiras capelas, imensas, que abrigam famílias inteiras sob nomes conhecidíssimos - Barão disto, Barão daquilo - a se deteriorar sob o descaso da comunidade... É um problema no mundo todo: o que fazer daqueles que foram esquecidos...
Eu acho que alguém cuida daí, intervém meu pai, porque é muito antigo... Poderia estar bem pior, 'tá até caiado de branco...
Trazidos de volta à realidade por um momento, meu primo, meu pai e eu caminhamos uns passos, avaliando um grande cedro, cujas raízes ameaçam a última casa de meus avós - pensando no que fazer, sabendo já que a administração havia lavado as mãos, que "dava problema" derrubar qualquer árvore...
Um pouco mais tarde, a caminho dos carros, mas ainda na grande aleia que margeia os imensos muros de pedra, centenários, do cemitério, lembrei-me de Pessoa, e num arroubo, arrematei para o Zé:
Um dia morrerei, e o dono da Tabacaria, depois a tabuleta por sobre a porta, até a língua em que foram escritos esses versos... morrerá...
Isso mesmo - ele admitiu - claro, pois só temos mesmo este instante...
E saímos dali, gravando na retina imagens deste mundo e desta época, destinadas ao esquecimento, com sorte ainda presentes por uns poucos séculos sobre pedras e tijolos que um dia também, como nós, virarão pó.
(Toda crença nasce do fato de não crermos em nossa própria mortalidade.
Por isto precisamos tão desesperadamente acreditar que não é "só isto").
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