Para começar, um chavão: humanos são seres volúveis por natureza, em constante mutação, nem sempre donos de seus caminhos.
A vida, "tão desconhecida e mágica" (como queria o poeta Cazuza), sempre nos surpreende, pondo na mesa novas cartas, tirando outras sem aviso prévio, fazendo-nos ora cair em seus blefes ora desistir ainda que com a mão cheia.
Outro poeta carioca, o Moska, fez um disco inteiro falando de um "presente" que era o futuro que ele nunca quis viver, ou algo que o valha; donde vem a pergunta: e alguma vez por acaso vivemos exatamente o que sonhamos?
E quando vivemos algo parecido, contentamo-nos?
Às vezes sim, outras não, complicados que somos pela inclusão de novas variáveis, por chegadas e partidas inesperadas, por decepções impensáveis e surpresas inauditas.
Onde nos encontrarmos, então, como nos descobrirmos; para que passar a vida tentando entender a nós mesmos se a vida é tão surpreendente, torta, gauche como um cover dissonante?
E o que fazer quando nos confrontamos com o desconhecido, o imponderável, o estranho... em nós mesmos?
Apanhados de sopetão pelas mudanças inesperadas no roteiro, somos atores em constante improviso, sem tempo para estudar nosso papel, sempre sem ensaio. Temos que tomar cuidado, assim, não só com o que falamos e como agimos, mas também, na outra ponta da janela de Overton, cuidar que nossa alma não se limite a contribuir com pequenos "cacos" a um roteiro que permitimos ser ditado por terceiros. Encontrar nossa própria voz, porém, é trabalho árduo e sofrido: somos cérebro e coração, quase sempre em conflito.
Viver com liberdade o que sentimos, o que pensamos, enquanto o sentimos e pensamos, talvez seja querer demais. Mas faz parte do sonho, e até do cotidiano, parte da atenção e cuidado com que nos abrimos para cada dia e o que ele nos propõe.
Por sermos assim tão ricos e desordenados, confusos e destrambelhados como nos ensina o chavão lá no início do texto, é natural que não caibamos nos papéis que construímos, ou deixamos que a vida construa para nós. Assumir a imensa amplitude de nossas almas é assumir todas as nossas incompreensões e desatinos, assumir nossas fraquezas, que de outro modo jamais seremos nós mesmos.

Nenhum comentário:
Postar um comentário