sexta-feira, 8 de agosto de 2014

A PRIMEIRA HISTÓRIA DO MUNDO

Comprei “A Primeira História Do Mundo” ali no Paço Imperial, naquela livraria à moda antiga – no bom sentido – que atende pelo nome de “Arlequim”.

Fiquei pouco lá, menos do que gostaria, tendo em vista a riqueza do acervo e o ambiente tranquilo, propício a leituras e devaneios. Mulher, filho e sogra num fim de tarde memorável, sabe como é: passeio pelo Centro antigo, exposição no MAR, outra no CCBB, almoço no Arco do Telles, última parada no Paço -  para o Thomas aprender um pouco mais sobre a cidade de reis e imperadores.

Quando vi seu livro, prezado Alberto Mussa, já o sabia; O Globo publicara, uns dias antes, a resenha. Não me assustei com seu aviso na contracapa (“Quero, assim, prevenir o comprador indeciso, que folheia um exemplar, mas ainda não pagou o preço”), pois o tema me interessava: um relato do primeiro assassinato ocorrido no Rio de Janeiro, então uma vilazinha com cerca de quatrocentos habitantes.

Voltamos para casa, exaustos, ainda que o calorzinho de julho seja brando na capital; loucos por um banho, comer e dormir. É o que fazem todos, mulher, filho e sogra, menos eu. A tevê grita, as buzinas no viaduto ali ao lado já passam da hora habitual, o menino assiste, atento, a um vídeo atrás do outro no YouTube, ele e a mãe já dormem. Menos eu.

Transportado momentaneamente para outro mundo, acompanho ansioso o desenrolar de fatos tão antigos, tão distantes, que acho que nem estou mais por aqui: o pensamento viaja, célere, pelas costas da baía, pelas águas do Rio Carioca, pelas ruazinhas estreitas do povoado encolhido sobre o Morro do Castelo, pela busca insana (que só consigo imaginar!) do autor por suspeitos, inocentes, culpados.

Organizado em meros cinco capítulos, o livro de Mussa entrega tudo que promete, e mais. À moda dos romances policiais, somos apresentados ao contexto do crime, acompanhamos a investigação levada ao cabo, à época, compartilhamos das suspeitas do autor sobre a virtude da esposa da vítima, e por fim somos apresentados aos suspeitos, enfileirados no terceiro capítulo que ocupa quase todo o tomo.

É quando a obra nos pega, de jeito e de vez. Em suas páginas desfilam heróis e anti-heróis, prostitutas e madamas, índios, negros, capitães-do-mato, degredados e ilustres desconhecidos, descritos à perfeição, de modo a nos brindar com um painel tão vivo e verossímil que nos esquecemos, boa parte do tempo, de onde surgiram: da leitura e do estudo, obviamente lento e difícil, de documentos públicos de quase quinhentos anos atrás.

Do quarto e do quinto capítulo, porém, nada posso adiantar, sob pena de estragar as surpresas, todas fantásticas, que o autor nos reserva ao final. Apesar de imbuído de um desejo irrefreável (e aparente) de concluir sua história, Mussa se contém, dá tempo ao tempo, e constrói suas conclusões com estilo e elegância, dando à história uma profundidade humana, e até mesmo literária, inaudita. Sua solução dantesca, apesar de arriscada, dá certo, e saímos da história certos de que a tal pesquisa dos fatos de nada valeria sem o amálgama do escritor talentoso, que transforma água em vinho.

À parte o fascínio do enredo, contudo, ganha relevo o pano de fundo histórico, a compreensão e a empatia necessários para tornar vivas essas personagens que tinham tudo para permanecerem desconhecidas de nós. Especialmente os índios: é deles a cultura, os costumes e o misticismo que permeia tudo nesta “Primeira História”. É a visão deles que alinhava os mais belos painéis daquele Rio de Janeiro de antanho, tem a ver com eles, os índios, até mesmo o final. E olha que eu não estou contando nada, viu?

Harold Nicolson (1886-1986), mestre resenhista inglês*, dizia, ao defender sua tarefa: “Dirijo-me aos autores dos livros que resenho; quero dizer-lhes por que gosto ou não gosto de seu trabalho; e acredito que de tal diálogo o leitor comum há de extrair alguma informação.” Aqui neste espaço, leigo e diletante, não temos tamanha pretensão. Fica esta quase carta ao autor. E uma vontade imensa de ver seu livro em cada casa, em cada sala de aula, para que conheçamos todos, divertindo-nos à vera, um pouco mais sobre este nosso louco, jovem e desconhecido país.



* Citado por Virginia Woolf em seu ensaio “Resenhando” (1939).

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