Comprei “A Primeira História Do Mundo” ali no Paço Imperial, naquela
livraria à moda antiga – no bom sentido – que atende pelo nome de “Arlequim”.
Fiquei pouco lá, menos do que gostaria, tendo em vista a riqueza do
acervo e o ambiente tranquilo, propício a leituras e devaneios. Mulher, filho e
sogra num fim de tarde memorável, sabe como é: passeio pelo Centro antigo, exposição
no MAR, outra no CCBB, almoço no Arco do Telles, última parada no Paço - para o Thomas aprender um pouco mais sobre a
cidade de reis e imperadores.
Quando vi seu livro, prezado Alberto Mussa, já o sabia; O Globo
publicara, uns dias antes, a resenha. Não me assustei com seu aviso na
contracapa (“Quero, assim, prevenir o comprador indeciso, que folheia um
exemplar, mas ainda não pagou o preço”), pois o tema me interessava: um relato
do primeiro assassinato ocorrido no Rio de Janeiro, então uma vilazinha com
cerca de quatrocentos habitantes.
Voltamos para casa, exaustos, ainda que o calorzinho de julho seja
brando na capital; loucos por um banho, comer e dormir. É o que fazem todos,
mulher, filho e sogra, menos eu. A tevê grita, as buzinas no viaduto ali ao
lado já passam da hora habitual, o menino assiste, atento, a um vídeo atrás do
outro no YouTube, ele e a mãe já dormem. Menos eu.
Transportado momentaneamente para outro mundo, acompanho ansioso o
desenrolar de fatos tão antigos, tão distantes, que acho que nem estou mais por
aqui: o pensamento viaja, célere, pelas costas da baía, pelas águas do Rio
Carioca, pelas ruazinhas estreitas do povoado encolhido sobre o Morro do
Castelo, pela busca insana (que só consigo imaginar!) do autor por suspeitos,
inocentes, culpados.
Organizado em meros cinco capítulos, o livro de Mussa entrega tudo que
promete, e mais. À moda dos romances policiais, somos apresentados ao contexto
do crime, acompanhamos a investigação levada ao cabo, à época, compartilhamos
das suspeitas do autor sobre a virtude da esposa da vítima, e por fim somos
apresentados aos suspeitos, enfileirados no terceiro capítulo que ocupa quase
todo o tomo.
É quando a obra nos pega, de jeito e de vez. Em suas páginas desfilam
heróis e anti-heróis, prostitutas e madamas, índios, negros, capitães-do-mato,
degredados e ilustres desconhecidos, descritos à perfeição, de modo a nos brindar
com um painel tão vivo e verossímil que nos esquecemos, boa parte do tempo, de
onde surgiram: da leitura e do estudo, obviamente lento e difícil, de
documentos públicos de quase quinhentos anos atrás.
Do quarto e do quinto capítulo, porém, nada posso adiantar, sob pena
de estragar as surpresas, todas fantásticas, que o autor nos reserva ao final. Apesar
de imbuído de um desejo irrefreável (e aparente) de concluir sua história,
Mussa se contém, dá tempo ao tempo, e constrói suas conclusões com estilo e
elegância, dando à história uma profundidade humana, e até mesmo literária,
inaudita. Sua solução dantesca, apesar de arriscada, dá certo, e saímos da
história certos de que a tal pesquisa dos fatos de nada valeria sem o amálgama
do escritor talentoso, que transforma água em vinho.
À parte o fascínio do enredo, contudo, ganha relevo o pano de fundo
histórico, a compreensão e a empatia necessários para tornar vivas essas
personagens que tinham tudo para permanecerem desconhecidas de nós.
Especialmente os índios: é deles a cultura, os costumes e o misticismo que
permeia tudo nesta “Primeira História”. É a visão deles que alinhava os mais
belos painéis daquele Rio de Janeiro de antanho, tem a ver com eles, os índios,
até mesmo o final. E olha que eu não estou contando nada, viu?
Harold Nicolson (1886-1986), mestre resenhista inglês*, dizia, ao
defender sua tarefa: “Dirijo-me aos autores dos livros que resenho; quero
dizer-lhes por que gosto ou não gosto de seu trabalho; e acredito que de tal
diálogo o leitor comum há de extrair alguma informação.” Aqui neste espaço,
leigo e diletante, não temos tamanha pretensão. Fica esta quase carta ao autor. E uma vontade imensa de ver seu livro em
cada casa, em cada sala de aula, para que conheçamos todos, divertindo-nos à vera, um
pouco mais sobre este nosso louco, jovem e desconhecido país.
* Citado por Virginia Woolf em seu ensaio “Resenhando”
(1939).
Nenhum comentário:
Postar um comentário