Curioso: os quarenta não me assustaram tanto quanto cada ano depois dele. Junto com os quarenta e cinco, completados ontem, vieram reflexões que me colocam, talvez, na tal crise da meia-idade.
Bobagem nossa acreditar em abstrações e aniversários. Estas coisas, porém, infiltram-se de maneira solene e indelével em nossas almas como outrora as estações do ano, hoje misturadas pelo caos meteorológico. Faz parte da gente refletir sobre passado, presente e futuro no transcorrer das efemérides.
Comparamos os sonhos que tivemos com o que efetivamente conquistamos, e nem sempre a conta fecha.
Sou feliz, hoje, por dois únicos motivos: a pequena família que montei, eu, mulher e filho vivendo uma vidinha simples, sem grandes sobressaltos, imperfeita mas verdadeira; e os verdadeiros amigos, poucos, suficientes, bacanas de conviver. A distância de meus filhos mais velhos acalento com amor e dor.
O resto é pó, espalhado pelos ventos da vida até sobrar quase nada.
Parente é serpente, como dizem os italianos, ainda que toda generalização seja burra. E somos todos bem vistos, na família ampliada, quando úteis, quando nada incômodos, quando sempre bem dispostos a ajudar quem precisa - por mais que nossos problemas devam ser resolvidos à larga, de maneira discreta, pois não interessam a ninguém. E desde que não mudemos, permaneçamos fiéis à imagem ancestral que imprimimos nos nossos. Há exceções? Claro.
Trabalho honesto não leva a nada, só à mera sobrevivência; pois bons mesmo neste país (em todos?) são os desonestos, os aproveitadores, os inocentes-úteis, os puxa-sacos, os filhos de, os filhos da, os "bem-relacionados", os mais competitivos. Continuamos porque não sabemos fazer diferente, alguns de nós, e estes apanharão sempre dos safados e hipócritas.
Carreira, pelo menos em PG, Paraná, esbarra nas impossibilidades políticas, no desinteresse da comunidade pelo destino de nossas crianças, pela falta de profissionalismo nos hospitais, pelo modelo feudal que predomina na Medicina, especialmente no interior.
Nesta - a Medicina - passamos de anjos a algozes, após décadas de lavagem cerebral político-midiática. O povo nos odeia - com razão, pelo que fazem os maus colegas; sem razão, dado que o SUS sobrevive às nossas costas, através do trabalho hercúleo dos bons profissionais de saúde em hospitais mal-ajambrados, funcionando à beira da penúria e do abandono. O povo espera milagres, 100% de cura e sucesso numa profissão em que o espectro da morte nos acompanha todos os dias, inevitável.
Na universidade, por sua vez, temos de um lado a mesquinharia política transformando a (quase) todos em corvos a disputar verbas, promoções, cargos comissionados, enfim, nesgas de um poder inútil - exceto aos egos. Do outro, verdadeiros mestres nem sempre apreciados ou tratados de maneira justa. Inteligência e autodeterminação incomodam, na Academia, onde vale mais quem mais anódino for.
A política, então, nem se fala: há sempre novas quadrilhas, referendadas pelo voto, dispostas a nos roubar mais um pouco (pouco?). E os poucos vem intencionados são logo comprados, cooptados ou calados; tornados cúmplices ou coniventes por um modelo democrático (?) ou falido. Governos são balcão de negócio porque nossa sociedade é cliente.
Minha avó Keka, sempre à frente de seu tempo, comentava sobre meus textos antes de falecer, que temia por mim. Ela própria só chegará a ter uma visão tão dura da vida quando idosa, dizia, não tão cedo.
Mas será cedo? Ou, na verdade, tarde demais para mudar?
Não tenho dúvidas acerca da realidade que enxergo ao meu redor. Se o homem é feito à imagem e semelhança de um Deus pessoal e compassivo, será que Ele nos abandonou? Ou deu espaço demais para a concupiscência no projeto e esta logo tomou conta? Seríamos apenas animais inteligentes, como a Ciência nos diz, logo, atados a instintos primitivos de auto-preservação? Sem alma, sem compaixão ou entusiasmo?
Não crescemos nada, filosofia e eticamente falando, ao logo das eras?
Quando meu olhar recai sobre as notícias da roubalheira na construção de obras para a Copa, quando sabemos que ainda hoje há mais de duzentas mil crianças-soldado nas guerras do mundo, quando acordo no dia de meu aniversário e vejo as fileiras de crianças palestinas assassinadas por judeus (o último povo que poderia fazer isto, depois de tudo que sofreu), minha resposta é NÃO. Não evoluímos nadica de nada.
Grandes desafios então se impõem. Fazer a Humanidade sobrepujar o monstro que existe de tel de cada um. Chegar ao fim de todos os dias em paz comigo mesmo e com os meus. Achar forças para acreditar. Passar aos filhos alguma esperança, alguma fé, nem que seja neles mesmos. Nunca desistir daquela mulher maravilhosa que, em meio a este mundo lazarento, tem sido sempre toda energia e todo amparo, réstia imensa de luz e calor. Tentar entender nossos pais, apesar de indecifráveis como todo ser humano. Procurar nos outros algo de bom. E acolher a todos que nos procuram com a delicadeza possível, que abre portas e nos protege.
É o que sei. O pouco que aprendi em quarenta e cinco anos muito loucos, bem vividos apesar das circunstâncias; a única vida que experimentei.
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