O samba, em casa ou no boteco, é tocado em torno da mesa, com os músicos sentados ao redor, olhos nos olhos de quem está do lado ou à frente.
Quando é bom, contagia sorrisos: qual outro ritmo traz tanta alegria estampada nos rostos, ritmistas inclusos?
Quando é bom, é clássico instantâneo, já sai consagrado do quintal ou da quadra; quando já é clássico não importa a origem, o autor, a escola: impõe respeito.
Aliás, um senhor respeito! - ao samba antigo, às velhas-guardas, aos carnavais de outrora. O samba, neste quesito, tem em sua companhia somente a música erudita, o blues e o jazz, onde história também é identidade.
Como diferença, samba é também identidade cultural, e muitos de seus seus bambas recebem sobrenomes patrícios (da Portela, da Mangueira, da Vila, etc) que reforçam o pertencimento a esta ou aquela comunidade - e que permanecem, quase sempre, ainda que a vida os leve a cantar/tocar em outras praças.
O samba é do bem: não se vêem brigas nas quadras, nos bares, nos fundos de quintal; e sim velhos, adultos e crianças cantando em volta das rodas, escolas visitando umas às outras num clima cordial, os mesmos sambas que passeiam de um canto a outro levados apenas pelo quesito qualidade, aprovados pelo crivo do tempo.
E não, o samba não morreu. Na passagem dos anéis de bamba, as novas gerações têm respeitado o pedido feito, há décadas, "ao sambista mais novo", simplesmente porque o morro "foi feito de samba, de samba pra gente cantar". E, ainda mais que isto, porque permanece, gauche, no asfalto também.
Nos anos noventa era difícil encontrar uma boa casa de samba no Rio de Janeiro; no final da década, uma única voz foi suficiente para ressuscitar a noite da Lapa, que agonizava. A partir do sucesso de Teresa Cristina, as casas noturnas se multiplicaram no local, criando uma cena forte. Vai-se ao bairro, hoje, basicamente para se ouvir samba.
Nos anos noventa eram raros os blocos, os bailes de salão viviam seus últimos grandes (?) momentos, o Sambódromo uma realidade tão à parte, que nesses dias de Momo, não raro, a cidade parecia (e estava) vazia.
Hoje o Rio ferve de novo num Carnaval sem fim, que esquenta os pandeiros já em janeiro e não se cala - não consegue! - pelo menos até o domingo seguinte aos feriados.
Numa esquina qualquer, nasce o "samba espontâneo", às vezes com instrumentos improvisados, surgido (do nada pleonástico) numa partenogênese indecifrável. As pessoas vão chegando, cantando e dançando, absortas, batucando aqui e ali a troco de nada.
De repente uma caixinha de fósforo, inaudível na multidão que se forma, marca o tempo só por farra; aparece um tamborim de verdade, um pandeiro; um sem-teto talentoso bate lata, o menino de rua arrebenta nos passos que nunca aprendeu, nasceram com ele. A menina que chega tímida dança e encanta (a mulata do ano é loura, desta vez, não importa), o gringo sorri, o pivete e o velho catam lixo no meio dos foliões, e o Samba continua, nem agoniza nem morre, alheio a teses antropológicas, ao merchandising onipresente e aos narizes torcidos de quem nunca o viveu.
FOTO: Roda de samba na Pedra do Sal, mais provável berço do ritmo, segunda-feira vinte e quatro de fevereiro de 2014.
