sábado, 9 de julho de 2016

UMA VIDA PEQUENA / A LITTLE LIFE, de Hanya Yanagihara

"But what Andy never understood about him was this: he was an optimist. Every month, every week, he chose to open his eyes, to live another day in the world... He did it when he was so exhausted of trying, when being awake and alive demanded such energy that he had to lie in bed thinking of reasons to get up and try again..."

UMA VIDA PEQUENA / A LITTLE LIFE, de Hanya Yanagihara, tem sido considerado por muitos o melhor romance americano dos anos 2000.  Denso, profundo e perturbador, o livro acompanha as desventuras de quatro amigos nova-iorquinos ao longo de décadas,  fornecendo um amplo painel das vicissitudes da vida moderna. 

O centro da história, bem como do afeto e respeito dos amigos, é Jude St. Francis, talvez um dos mais ricos e bem desenvolvidos da história da literatura. Chama atenção a profunda humanidade do enredo, à medida que descobrimos todos os traumas que uma infância inimaginavelmente infeliz que Jude carrega dentro de si. Ele é uma espécie de Lisbeth Salander da vida real, "worn out but wide awake" ("quebrado, mas bem desperto"), como vem descreve a autora em algum momento. Sofrido mas genial, descompensando mas inteligentíssimo, consciente de seu caráter autodestrutivo, Jude nos comove, assim como emocionante é o relato cru e verdadeiro da amizade entre homens adultos, sem meias-palavras. 

O detalhe inolvidável é que se trata de uma mulher escrevendo em primeira pessoa, no sexo masculino, sem falhas, exageros ou mistificação. Muito mal comparando, algo similar a um Chico Buarque (quando escrevia do ponto de vista feminino) quase sustenta por mais de 700 páginas. 

Um livro e um personagem que ressoam na alma por muito depois de finda a leitura. Com uma única ressalva: trata-se de um livro para pessoas fortes - lágrimas são inevitáveis. 

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

O novo tesouro de Harper Lee

"Vá, Coloque Um Vigia / Go Set A Watchman" é a surpreendente continuação de "O Sol É Para Todos / To Kill to Mockinbird", clássico de uma autora bissexta, Harper Lee.

O primeiro, considerado por muitos o melhor romance americano do século XX, lançado em 1962, ainda hoje vende mais de um milhão de exemplares por ano em seu país de origem. Tornou-se um filme, também clássico, ícone dos "filmes de tribunal", objeto de estudo e admiração nas escolas de direito. 

Sua autora ainda vive, aos mais de noventa anos de idade, e agora nos brinda com a continuação de seu festejado (e até então único) livro. Ganhamos nós, leitores, por podermos conhecer um pouco mais da vida de Atticus Finch, de sua filha Scout, e de outros personagens inesquecíveis. 

Atticus é o advogado branco, honesto, cristão protestante, descendente direto dos primeiros imigrantes de Maycomb, cidade fictícia no Alabama, onde se passa a história. Nos anos trinta, cabe-lhe defender um negro injustamente acusado de estupro, com todas as consequências sociais e políticas condizentes à repercussão racista de um ato destes na época. Jem e Scout são seus filhos pré-adolescentes, crianças criadas à solta em uma cidade pequena e isolada; acompanham a aventura do pai em grande estilo, sendo trazidos ao centro da ação quando esta se soluciona. 

Romance leve, mas profundo, de linguagem fácil porém esperta, recheada de sacadas cômicas que passam quase despercebidas, "O Sol..." nos fala de outra época, em que as verdades eram mais claras e maniqueístas, as liberdades individuais não estavam em questão (ou pelo menos não faziam frente aos "bons costumes" que deveriam ser preservados em nome da ordem social), em que os preconceitos não eram só tolerados, mas até estimulados. O clima onírico, quase infantil, corrobora para o sucesso instantâneo e duradouro, do livro. 

Já em "Vá, ...", Harper Lee vai mais longe, ao abordar o clima de guerra racial iminente que contagia o sul dos Estados Unidos de então. Scout já é uma jovem de vinte e seis anos quando a história é retomada; mora em Nova Iorque e vem a Maycomb passar férias. Está mudada, mas não em sua essência: apenas atravessa, não sem dificuldades, a difícil tarefa de amadurecer. Não se encontra em NY, mas já foi transformada por ela; quando chega ao Alabama, não reconhece mais suas raízes, sou origem, sua família, pondo tudo em xeque, a si própria com especial rigor. 

Enxuto e direto, o segundo livro da Sra. Lee é tão bem escrito quanto o primeiro. Talvez não tão trabalhado, mas não de menor alcance. 

Ao peitar a difícil tarefa de explicar como caráter, virtude e ética podem misturar-se com o que se faz necessário para a sobrevivência em comunidade, Lee acerta em cheio em um problema atemporal do ser humano. Até onde podemos aceitar o que é inaceitável, até onde vão os fanatismos, como conviver com os monstros do cotidiano? Sem respostas prontas, suas reflexões cabem com uma luva, também, para os tempos perigosos em que vivemos hoje. 

sexta-feira, 31 de julho de 2015

O preá

Devia ter uns dez anos de idade, quando muito, à época em que ajudávamos meu avô Jacobus, todos os anos, a queimar o campo na chácara. 

Eu sei, a ciência hoje diz que é errado, mas no caso dele tinha explicação. 

Um dos primeiros trabalhos que foram ofertadas a seu pai,o açougueiro Jan Hendrik, de Haia, quando chegaram ao Brasil em 1920, foi fazer "a queimada" na propriedade de outro colono holandês, nos primórdios de Carambehy, no Paraná. 

Para quem não conhece, Carambeí é hoje uma próspera cidade, terra da Batavo, de muita agricultura e pecuária, mas também rica em História, com seu parque temático da colonização. 

Queimava-se o campo para que ele nascesse de novo, possibilitando ao gado voltar a pastar. Com o mato alto, havia o perigo da combustão acidental, afetando capões de mato e as próprias chácaras incipientes. A queimada permitia o fogo controlado, através da capinação de potreiros - espaços livres de mato entre este e as árvores e casas. 

Mas não daquela vez. O vento viera, a inexperiência construira potreiros pequenos demais, e as terras do vizinho arderam por um dia e uma noite, até a chuva chegar, levando com ela as já combalidas reservas dos van Wilpe, e determinando o futuro de Jacobus, forçado a procurar emprego fora de casa já aos quinze anos. 

Jacobus tinha medo de incêndio, além de acreditar na necessidade e eficiência das queimadas. Eu, de minha parte, aos dez anos de idade já era craque. Tanto que pouco tempo mais tarde, com a morte de meu avô, assumi uma primeira queimada sozinho, auxiliado apenas por uns piás, filhos do caseiro doente. 

Mas na história que quero contar, meu avô ainda vive, minha Oma também, e até minhas mãe e irmã ajudavam na empreitada. 

Subitamente, ao queimarmos o mato do miolo da chácara, dentro da sede e em frente às lagoas, surge de dentro da névoa e da fumaça um bichinho, um preá. 

Disposto a fazer graça, corri em direção a ele, e perto do poço, no meio da praça da sede, com aquela criançada toda em volta me observando, meti o pé num chute, pensando que não iria, jamais, acertar. 

Qual o quê. Rachei o nariz do bicho em dois, pegando em cheio e de frente, mandando-o pelos ares por uma dezena de metros, onde quedou-se, silente, morto para sempre, RIP (in peace, com o perdão do pleonasmo).

Corri para lá, mas não havia o que fazer.  Não mesmo. Criança, eu chorava como tal, sob as zombarias e gozações da gurizada da chácara. 

- É só um ratinho! - diziam. 

- Ma' que Mané bocó! Esses bicho aparece morto todo dia por aí. 

- Vamos fazer um churras desse aí. 

Não deixei. 

Demo-lhe um enterro cristão, lá no meio dos cedros, e as lágrimas continuavam escorrendo, para minha vergonha, perante a piazada. Minha irmã, peque-nina, sensível, chorava também.  

Depois não me lembro bem quem me falou, se foi minha mãe ou meu avô, que a lição era "pensar melhor antes de fazer as coisas". Verdade. 

Para mim, contudo, havia outra descoberta por trás: o respeito à vida. São desta mesma época, tardia, alguns de meus piores pesadelos e temores; cada gatinho ou cachorro morto na estrada ou na rua, me deixava desolado, cada novo pet um recado de minha própria mortalidade. 

Como antídoto, colhia histórias dos mais velhos, numa tentativa vã de imortalizar essa memória em mim mesmo, fazer viver pra sempre aqueles de quem eu vim, especialmente os que nunca cheguei a conhecer por me precederem. 

Coisa muita louca pra um piá de dez, doze anos pensar, não? Mas eu era assim, é pra entender tudo isso me enfiava nos livros feito um possesso, dois ou três por dia, emprestados da Biblioteca Pública Bruno E MARIA Enei. 

Quanto ao amor aos seres vivos e o respeito à tudo que vive, um dia minha outra avô, a Keka, um dia me falou: 

- Você sempre foi assim: tirava as formiguinhas do meio do caminho lá em casa, para ninguém pisar. 

Por isto não entendo a tal caça esportiva. Se for para comer, dentro de uma tradição cultural, com limites e respeito, acho melhor que os matadouros da criação tecnológica atual. Mas caçar animais protegidos, burlando leis internacionais, usando de métodos escusos... Quão monstro é o tal dentista americano? Quão monstro é este mundo em que vivemos, onde a morte de um leão (famoso, ok) ou cinco rinocerontes é notícia? 

Ou seja: está tudo por se extinguir, por se acabar, e há idiotas suficientes para ir até lá matar o que sobrou? É isto mesmo ou o idiota sou eu?

Pare o mundo que eu quero descer. Vou pra Kepler 432c, o tal planeta gêmeo da Terra, que aqui está tudo às avessas. 

terça-feira, 14 de julho de 2015

Boa viagem, Miguel

Gostamos quando o personagem se movimenta, busca novos caminhos. Ouvimos essas histórias mil vezes, pensamos, mas quando o personagem, o protagonista se levanta, e se move, queremos mais.  Acompanhamo-lo.  

Quando fui a Manaus servir o Exército, garoto de vez, meu pai me disse que me imaginava como num filme, um estranho em uma terra estranha, à frente o futuro em branco (ou verde, para ser acurado). Era verdade. 

Muito distante e diferente disso é esta anunciada temporada do Sr. Miguel Sanches Neto em Braga, Portugal, para um Estágio Sênior na Universidade do Minho. 

O Professor Miguel é um dos mais destacados e conhecidos intelectuais brasileiros, escritor produtivo e influente, professor há décadas, dos que militam ao lado da verdade, e uma grande figura. Tímido, porém vivaz, discreto, mas não recluso, um caminhante - como mostrou no "livro da BR". É sobretudo, uma testemunha eloquente dos tempos, que ousa dividir doce e amargo com seus leitores, se(m)meias palavras. 

Que faça boa viagem. Que aproveite ao máximo, grande observador que é.  Que caminhe muito em seus jardin de pedra. Que leia tudo que queira no silêncio da Europa e de tudo que é velho. Que nos mande haicais: queremos muito saber o restante da história. 

quinta-feira, 2 de julho de 2015

Odiar Cazuza

Na minha adolescência, Cazuza já era um sucesso. Assisti Bete  Balanço, o filme, e saí extasiado com a música, com as letras, com a cena de sexo da Bloch com o Corona (que me assombraria por anos), e principalmente com aquele nanico, o tal Cazuza - moleque Zona Sul, meio bicha, que cantava pra caralho e fingia não ligar. Mas já era moda, também, desde o início, odiar CAZUZA. 

No ano seguinte, o Barão Vermelho veio a Ponta Grossa, onde tocou para um ginásio Borell du Vernay socado de gente, com muita expectativa pelo melhor show do rock brasileiro de então. 

Cazuza surtava com as latas de cerveja que os "cozidos" jogavam no palco, e lá pelas tantas, se mandou. Antes, balançara o LeSon churi no quadril: 

- É, Ponta Grossa, minha ponta é mais grossa que a de vocês... Otários...

Frejat manteve o ritmo, e nada do Caju voltar. Quando aquele ia assumir os vocais, a bicha voltou, meio putinho, tomou-lhe o microfone e voltou a cantar. 

Assim era Cazuza, um monstro no palco, um artista completo, um entertainer, um poeta, mas muito, muito doido. 

Amigos em comum me contaram, no Rio, das loucuras que o cara fazia, chapadaço, nas festas, nas turnês. Na escola e entre os amigos, declarar-se fã do Cazuza era meio que assumir uma certa boiolagem, se é que vocês me entendem. Era um ato de coragem, embora todos cantassem suas canções. 

 O país inteiro comentava seu comportamento dissoluto (sic), em uma época de intenso preconceito. Como interno de medicina, fui voluntário para o estágio na Infectologia, onde acompanhei por seis semanas o sofrimento indizível pelo qual as vítimas da síndrome passavam até a morte inevitável. Meus colegas de turma nos evitavam, os quatro malucos que atendiam "os aidéticos": ninguém nos beijava ou dava a mão; almoçávamos em um canto isolado. 

Quando o flagelo de Deus (sic) se abateu sobre ele (sic), os cristãos verdadeiros lhe negaram a compaixão. "Mereceu!", diziam. "Viado fdp!", falavam. "Viu no que dá dar a bunda? Tá com aids." "É a maconha!", afirmavam. "É castigo divino!", pleiteavam outros. 

Imagina hoje como seria - com a internet; foi assim na base da fofoca, das revistas de celebridades, que cresceram os mitos sobre a doença e o sumiço de Cazuza. 

Em um belo domingo de sol, meses depois, Cazuza estaria em todas as bancas do país, na capa da revista de maior circulação, magro como um faquir, assumindo a sua doença. 

Foi chocante. Foi doloroso. E se não mudou a opinião pública por completo, arrastou multidões a suas legiões de fãs. Como cantor, estava onipresente nas rádios; como poeta, redefinia e revirava o país. 

Ainda assim, com todo o sucesso e a aclamação popular aos seus últimos discos, em especial o gravado "ao vivo" - O TEMPO NÃO PARA; com a sedimentação de sua obra ao longo de mais de duas décadas e com a diminuição do preconceito para com homossexuais e portadores da síndrome, Cazuza gera polêmica. Ainda hoje há aqueles que não entendem sua liberdade, sua poesia e seu papel transgressores. Sua obra, contudo, ficou como uma das mais importantes da música brasileira no seculo XX.