segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

A segunda morte de Jacobus van Wilpe

É muito provável que a especulação imobiliária, presente na região da PR-151, consiga finalmente apagar do planeta a memória de um homem cada dia mais esquecido: o artista plástico e escritor Jacobus van Wilpe. 

Pioneiro da colonização de Carambeí, para onde veio com seus pais e irmãos em 1920; pintor de cartazes para o cinema e o circo em Castro, na mesma década e na seguinte; aluno de Lange de Morretes, cunhado de Kurt Boiger, amigo íntimo de Freyeskeben; anfitrião, em sua Chácara Pitangui, de um grupo amplo de pintores e intelectuais (como Dante Romanó Fº, professor de medicina em Curitiba, que vinha só para pescar e prosear) que se reuniam amiúde e comungavam de um estilo e pretensões artísticas similares - dentre eles Nisio e Traple, outros grandes da Pintura Paranaense. 

Experiente em quase todo tipo de profissão, Jacobus fixou-se em Ponta Grossa nos anos 1940, quando comprou o terreno da Chácara Pitangui, onde hoje se espalha hoje o bairro de Santa Monica. 

Em condições paupérrimas, longe que estava da cidade (para os padrões da época), ergueu sozinho uma casa, depois um barracão, um estábulo e por fim outra casa, de dois andares, no alto do morro. Para esta, contou com a ajuda de um único peão, já morador de uma das casinhas, seu primeiro funcionário. E ainda assim só para o telhado. 

Este era Jacobus. Temeroso dos dias de fome e miséria de sua chegada ao Brasil, nunca gastava um tostão à toa. Economizou a vida inteira para que um dia, se os seus precisassem, pudessem viver "do bolo". Por isto também não buscou a profissionalização em sua Arte. Pecuarista, não considerava trocar o certo pelo duvidoso, quanto mais depois de esposa e filha. 

Contudo, nunca parou de pintar paisagens, algumas no próprio Rio Pitangui, que passava pela chácara, e natureza-mortas, diligentemente preparadas por sua esposa Ilse. Expunha aqui e ali, e certa vez conquistou até uma Menção Honrosa no Salão Paranaense, com a mais bela "Acácia Mimosa" que alguém poderia pintar - invejada até pelo mestre Freyes. Pintaria até o fim da vida, expondo sempre em coletivas por não querer vender seus quadros. 

No final dos anos sessenta começou a construir uma nova sede para a chácara, mais abaixo, próxima aos olhos d'água e ao banhado, donde  extrairia a água para duas lagoas. Ali plantaria árvores frutíferas e nativas, pensando um dia construir uma casa para residir. Esta é a parte que conservaria ao vender a Pitangui em 1973; esta é a parte que foi vendida recentemente pela herdeira, contra a vontade de filhos e netos. 

Uma lástima, por tratar-se de extensa área verde que o projeto, perdulário, não irá preservar, substituindo-a por centenas de casinhas em um condomínio dito "de luxo". Área verde que, se vivêssemos em um país sério, com certeza seria preservada, para o bem das novas gerações. Especialmente em uma cidade tão pobre em lazer e cultura. 

O bom tom me fez pensar muito antes de tornar público meus pensamentos sobre este "negócio", que encaro com mágoa e dor. Como cidadão pontagrossense, pai de três meninos e professor universitário,  porém, jamais poderia me calar, ainda que a destruição deste paraíso sejam favas contadas. 

Meu avô, morto em 1986, há de me compreender e perdoar. Até porque a sede original da fazenda, transformada em "Praça Ambiental Jacobus van Wilpe", no centro do bairro, é outro ponto abandonado desde a gestão municipal anterior. 


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