segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

A segunda morte de Jacobus van Wilpe

É muito provável que a especulação imobiliária, presente na região da PR-151, consiga finalmente apagar do planeta a memória de um homem cada dia mais esquecido: o artista plástico e escritor Jacobus van Wilpe. 

Pioneiro da colonização de Carambeí, para onde veio com seus pais e irmãos em 1920; pintor de cartazes para o cinema e o circo em Castro, na mesma década e na seguinte; aluno de Lange de Morretes, cunhado de Kurt Boiger, amigo íntimo de Freyeskeben; anfitrião, em sua Chácara Pitangui, de um grupo amplo de pintores e intelectuais (como Dante Romanó Fº, professor de medicina em Curitiba, que vinha só para pescar e prosear) que se reuniam amiúde e comungavam de um estilo e pretensões artísticas similares - dentre eles Nisio e Traple, outros grandes da Pintura Paranaense. 

Experiente em quase todo tipo de profissão, Jacobus fixou-se em Ponta Grossa nos anos 1940, quando comprou o terreno da Chácara Pitangui, onde hoje se espalha hoje o bairro de Santa Monica. 

Em condições paupérrimas, longe que estava da cidade (para os padrões da época), ergueu sozinho uma casa, depois um barracão, um estábulo e por fim outra casa, de dois andares, no alto do morro. Para esta, contou com a ajuda de um único peão, já morador de uma das casinhas, seu primeiro funcionário. E ainda assim só para o telhado. 

Este era Jacobus. Temeroso dos dias de fome e miséria de sua chegada ao Brasil, nunca gastava um tostão à toa. Economizou a vida inteira para que um dia, se os seus precisassem, pudessem viver "do bolo". Por isto também não buscou a profissionalização em sua Arte. Pecuarista, não considerava trocar o certo pelo duvidoso, quanto mais depois de esposa e filha. 

Contudo, nunca parou de pintar paisagens, algumas no próprio Rio Pitangui, que passava pela chácara, e natureza-mortas, diligentemente preparadas por sua esposa Ilse. Expunha aqui e ali, e certa vez conquistou até uma Menção Honrosa no Salão Paranaense, com a mais bela "Acácia Mimosa" que alguém poderia pintar - invejada até pelo mestre Freyes. Pintaria até o fim da vida, expondo sempre em coletivas por não querer vender seus quadros. 

No final dos anos sessenta começou a construir uma nova sede para a chácara, mais abaixo, próxima aos olhos d'água e ao banhado, donde  extrairia a água para duas lagoas. Ali plantaria árvores frutíferas e nativas, pensando um dia construir uma casa para residir. Esta é a parte que conservaria ao vender a Pitangui em 1973; esta é a parte que foi vendida recentemente pela herdeira, contra a vontade de filhos e netos. 

Uma lástima, por tratar-se de extensa área verde que o projeto, perdulário, não irá preservar, substituindo-a por centenas de casinhas em um condomínio dito "de luxo". Área verde que, se vivêssemos em um país sério, com certeza seria preservada, para o bem das novas gerações. Especialmente em uma cidade tão pobre em lazer e cultura. 

O bom tom me fez pensar muito antes de tornar público meus pensamentos sobre este "negócio", que encaro com mágoa e dor. Como cidadão pontagrossense, pai de três meninos e professor universitário,  porém, jamais poderia me calar, ainda que a destruição deste paraíso sejam favas contadas. 

Meu avô, morto em 1986, há de me compreender e perdoar. Até porque a sede original da fazenda, transformada em "Praça Ambiental Jacobus van Wilpe", no centro do bairro, é outro ponto abandonado desde a gestão municipal anterior. 


sábado, 28 de dezembro de 2013

Sou louco por você (Ho voglia di te), Federico Moccia, 2006

Eis aí um livro para quem gosta de ler. 

Um livro vem escrito e despretensioso; de ritmo vertiginoso, porém paulatinamente mais profundo à medida que a trama se desenvolve; leve e safado (no melhor sentido). 

Coalhado de histórias e personagens fascinantes, tornou-se bestseller na Europa, depois no mundo todo. 

Eis aí um livro para quem não acredita mais no poder de mobilização da literatura. Uma de suas cenas, talvez a mais tocante, se passa na Ponte Milvio, sobre o Tibre de tantas civilizações, onde se prendem os "cadeados dos apaixonados" que, depois do livro, foram copiados em outras pontes, sobre outros rios mundo afora. 

Eis aí um livro para quem não acredita mais no amor. 

Ficou interessado? Não perca tempo! A Planeta publicou no Brasil em 2011, e não é muito fácil de se encontrar. Mas vale cada centavo, cada linha, cada segundo de leitura. 

Com direito a reviravolta surpresa no final. 

domingo, 15 de dezembro de 2013

Tarefa Hercúlea

Para começar, um chavão: humanos são seres volúveis por natureza, em constante mutação, nem sempre donos de seus caminhos. 

A vida, "tão desconhecida e mágica" (como queria o poeta Cazuza), sempre nos surpreende, pondo na mesa novas cartas, tirando outras sem aviso prévio, fazendo-nos ora cair em seus blefes ora desistir ainda que com a mão cheia. 

Outro poeta carioca, o Moska, fez um disco inteiro falando de um "presente" que era o futuro que ele nunca quis viver, ou algo que o valha; donde vem a pergunta: e alguma vez por acaso vivemos exatamente o que sonhamos? 

E quando vivemos algo parecido, contentamo-nos? 

Às vezes sim, outras não, complicados que somos pela inclusão de novas variáveis, por chegadas e partidas inesperadas, por decepções impensáveis e surpresas inauditas. 

Onde nos encontrarmos, então, como nos descobrirmos; para que passar a vida tentando entender a nós mesmos se a vida é tão surpreendente, torta, gauche como um cover dissonante? 

E o que fazer quando nos confrontamos com o desconhecido, o imponderável, o estranho... em nós mesmos? 

Apanhados de sopetão pelas mudanças inesperadas no roteiro, somos atores em constante improviso, sem tempo para estudar nosso papel, sempre sem ensaio. Temos que tomar cuidado, assim, não só com o que falamos e como agimos, mas também, na outra ponta da janela de Overton, cuidar que nossa alma não se limite a contribuir com pequenos "cacos" a um roteiro que permitimos ser ditado por terceiros. Encontrar nossa própria voz, porém, é trabalho árduo e sofrido: somos cérebro e coração, quase sempre em conflito. 

Viver com liberdade o que sentimos, o que pensamos, enquanto o sentimos e pensamos, talvez seja querer demais. Mas faz parte do sonho, e até do cotidiano, parte da atenção e cuidado com que nos abrimos para cada dia e o que ele nos propõe. 

Por sermos assim tão ricos e desordenados, confusos e destrambelhados como nos ensina o chavão lá no início do texto, é natural que não caibamos nos papéis que construímos, ou deixamos que a vida construa para nós. Assumir a imensa amplitude de nossas almas é assumir todas as nossas incompreensões e desatinos, assumir nossas fraquezas, que de outro modo jamais seremos nós mesmos. 


segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Erna und Alfred

Alfred Kindler, 1898-1983 (retrato por Kurt Boiger).



Erna und Alfred. Meus bisavós. 


Toque mais um pouco, meu filho”, dizia o pequeno grande homem, sentado a meu lado no banco de praça instalado no jardim. Um pouco surpreso com seu interesse, eu atendi seu pedido com prazer, esgotando rapidamente o escasso repertório de violão clássico aprendido até então.

Tocaria ainda algumas vezes para meu bisavô, porém nunca mais no belo recanto que ele criara em honra da esposa, gravemente doente e restrita ao leito. Ali seu espírito de espírito de artesão e inventor tivera um último lampejo, quando com mais de oitenta anos resolvera por abaixo o galinheiro e parte do pomar para presentear minha bisavó com um lugarzinho para tomar sol.

Logo o pedaço de terra, espremido entre a casa e a indústria que capitaneara por tantas décadas, mostraria o que só ele, quase cego, conseguira entrever: um espaço nada tímido de grama, flores e luz – arrematado pelo tal banco de praça para os dois namorarem, é claro.

Hannah, a enfermeira, descia com a Omama no colo, esperando nem sempre em vão por um momento de sua lucidez. Sentados ali, Alfred e Erna Kindler se entendiam através de longos silêncios, interrompidos apenas pelo canto dos passarinhos que os vinham saudar.

Como está frio lá fora”, dizia o Opapa agora na cozinha, em “seu” lugar à janela, onde tocava o vidro displicentemente, disfarçando a debilidade da visão.

Ele é tão respeitoso”, dizia Erna baixinho, referindo-se ao “senhor que dorme no meu quarto todas as noites”. “Ele só me faz um carinho na mão e fica lá, ao meu lado, não incomoda nadinha”.

Foram sempre água e vinho, aqueles dois. Bem, pelo menos é o que se conta a respeito. Alfred gostava de praia: construiu uma casa em Caiobá onde ela nunca botou os pés. Já Erna gostava do campo: adorava visitar a chácara da filha mais velha em Ponta Grossa. O boliche dele nas quintas-feiras à noite era sagrado, mas ela nunca foi lá muito fã de noitadas – preferia a família reunida, a casa cheia e os grossos cobertores de pena-de-ganso em uso. Mas eram ambos muito hábeis com as mãos. As compotas e conservas feitas pela Omama duraram mais que a doença ou ela própria, sendo abertas intactas anos depois e encontradas como se tivessem sido feitas ‘inda ontem. E das indústrias Kindler e Cia., desde os anos trinta funcionando na Rua Senador Xavier da Silva, pertinho da fábrica dos irmãos Mueller, saíram torneiras, chuveiros, bombas de encher bolas e pneus de bicicleta, bem como todo tipo imaginável de artefatos de metal, até instrumentos cirúrgicos quando estes eram caríssimos e raros de se encontrar.

As filhas e genros se revezariam em cuidados extremados para com ambos, quando a idade e a velhice assim o determinaram – por mais que Alfred jamais admitisse precisar de cuidado algum. Dirigira a velha Kombi bege por anos sem que ninguém soubesse que só lhe restara um quarto da visão de um olho. Mais tarde, já praticamente cego, empertigava-se todo quando alguém sugeria que este bisneto primogênito já lhe ultrapassava a altura. “Nein, nein, ainda não...

Não se dobrou sequer à morte da esposa, certa madrugada em 1983. Avisado pela doce e firme Hannah – e contra o conselho desta – esperou o dia amanhecer ao lado dela, segurando sua mão pela derradeira vez. Suportou o féretro em pé, consolando mais do que era consolado, até desabar emocionado no carro do filho. Apesar da saúde de ferro, viria a falecer uns meros seis meses depois.

O interessante é que em minha cabecinha de criança, tudo isso era normal, apenas uma parte boa e feliz da vida familiar. Só a idade, e o tempo, despertariam a consciência de ter presenciado um milagre. Os Natais e as páscoas na imensa casa de meus bisavós, o gosto da comida da Omama, os passeios pela fábrica que o tato do Opapa conhecia de cor, as longas conversas na sala de estar, o colo de ancestrais que tão poucos de nós logram conhecer...

De tudo isso, contudo, algo jamais escapou ao meu entendimento, por mais criança que o fosse: o exemplo de um amor que nunca precisou se preocupar em “dar” exemplo – estava sempre lá, simples e direto como um perfume que preenche invisível um cômodo, uma casa, nossas vidas. Verdadeiro milagre, neste mundo carente de um.




quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Num átimo

Num instante que pareceu eterno tudo se explicou: 
O vento parou, e assim também o fizeram galhos de árvore arremessados ao ar fustigante, trepadeiras descoladas que batucavam janelas, aquele saco de cimento vazio debaixo da pedra (que marcava um buraco no leito de paralelepípedos que recobria a rua), que insistia em soprar fantasmagórico, gutural, vuuuuuuuh...
O sol pareceu piscar, num átimo, por tão pouco tempo que seus olhos nem perceberam, quanto menos cogitaram procurar a nuvem que causara o fenômeno; estavam fixos no infinito ladrilho vermelho, indefectível; no máximo atraídos, vez em quando, pelo andarilhar silente das correntes de formigas, pelos cutões esvoaçantes, pelo tatu-bolinha (virando bolinha) na ponta de seus dedos. 
O calor nem se alterou pelo pequeno semieclipse - espalhava-se imóvel pelo corpinho pequeno, magrelo, sentadinho no chão do refúgio, pertinho das funcionárias e violetas, da grama que cheirava a limão. 
Parou de pensar, um instante - este instante - um único instante! o último de que poderá lembrar, até...? O último momento, será? 
- Não sei, este ainda me caberá viver.  Nunca encontrei quem o tenha descrito de viva voz, jamais encontrei uma antecipação dele em mim.
Parou de pensar por um momento, por um instante. Um segundo, ou mais. 
Uma folha caiu, seca, retorcida, despregada do cedro - que logo voltou a balançar. 
Soltou o tatuzinho, que quedou-se e lá ficou, quase na terra da descida do carro, mas ainda no ladrilho. 
Procurou alguma coisa nos bolsos (nunca soube o que era, nunca me contou) e logo levantou, amuado, pensando em pegar um livro lá dentro, pensando em como o tempo parecia se arrastar naquela sexta-feira que antecedia a esperada viagem a Caiobá...

Jamais pararia de pensar, nunca; nunca mesmo conseguiria repetir o que hoje lhe veio de graça, o segundo parado no tempo, algo pior que o silêncio, pura ausência de som.

quarta-feira, 17 de julho de 2013

O DPPP e a lapa branca

Trabalhavam ambos no mesmo hospital, o velho e o novo médico, o segundo antecedendo o primeiro na ordem dos plantões. 

Cirurgião das antigas, que confia mais "na mão" que nos exames complementares, o velho opera tudo (ou quase). Apertou a pança, retirou a mão e o paciente gritou de dor, é "sala!" - coisa que lhe valeu o apelido de Dr. Salas. 

O novo - nem tão novo assim - é de outra época, só opera quando tem certeza, executando uma semiologia caprichada, deixando o paciente em observação, confiando na evolução clínica soberana. 

No fundo, não são tão diferentes assim. Ambos bons médicos, bons cirurgiões, que sofrem pelas precárias condições do hospital em que trabalham. 

Ultrassonografia? Nem pensar, só na cidade vizinha. Tomografia? Sonho: só na capital. Enquanto isso, fazem o possível, cada um a seu modo. É claro que o conflito não tarda a chegar. 

Dr. Salas opera tudo; então, obviamente, de vez em quando opera uma GECA, uma ITU, um "mittelschmertz". 

Dr. Novinho opera menos, deixa de vez em quando algum paciente "pendurado" para o próximo plantão, o que lhe vale a pecha - dada pelo Salas - de DPPP ("deixa para o próximo plantão").

Uns sarcásticos, esses médicos. 

Um dia invertem a ordem dos plantões e Dr. Salas aguarda Dr. Novinho no alojamento médico. Quando este passa, o outro tripudia, comentando com um terceiro colega:

"Se um dia eu escrever um livro, vai se chamar 'O DPPP' ".

De bate-pronto, Dr. Novinho responde: 

"Tudo bem, Dr. Salas. O meu se chamará 'A Lapa Branca' ". E riram alto is dois, sepultando qualquer magoa. 

Uns sarcásticos, esses médicos. 




 

Meio médico, meio escravo


Meio médico, meio escravo
13 de julho de 2013 
Fernando Reinach - O Estado de S.Paulo
O autor é graduado em Biociencias pela Universidade de São Paulo(1978), mestrado em Ciências (Biologia Celular e Tecidual) pela Universidade de São Paulo(1980), doutorado em Cell Biology And Anatomy pela Cornell University(1984) e pós-doutorado pela University of Cambridge(1986). Atualmente é professor titular da Universidade de São Paulo.
 
Incapaz de convencer jovens médicos a trabalhar no SUS, o governo federal resolveu criar um novo profissional, o meio médico meio escravo. Esse profissional, inspirado nos mitológicos centauros e na famosa meia muçarela meia calabresa, virá em duas versões, nacional e importado. É a pizza que vai ser servida no SUS.
Durante anos dei aula para os calouros da Faculdade de Medicina da USP. Eram jovens que haviam escolhido uma profissão em que a derrota é certa. Ninguém consegue escapar da morte. Ingenuamente arrogantes e prepotentes, algo compreensível em quem sempre foi o melhor aluno, sobreviveu dois anos de cursinho, e se classificou entre os 300 melhores no vestibular mais competitivo, acreditavam que se tornando médicos curariam doenças letais, mitigariam o sofrimento, descobririam novos remédios e, lutando contra o único inimigo realmente invencível, ajudariam a humanidade. Durante os dois primeiros anos de curso, a maior dificuldade era mantê-los longe do hospital. Bastava surgir a oportunidade de participar em alguma atividade que envolvesse pacientes e a frequência nas minhas aulas de bioquímica minguava. Isso não era um problema, aqueles alunos aprendiam sozinhos.
Mas nos anos seguintes a realidade desabava sobre a cabeça dos alunos. O primeiro cadáver dissecado, cenas de sofrimento, a primeira morte observada de perto, a primeira parada cardíaca que não consegui reverter, um erro que só não foi fatal porque um supervisor estava atento. A primeira noite no pronto-socorro, uma lâmpada quebrada dentro da vagina de uma paciente. Na década de 80 ano, um aluno se suicidava todo ano. Hoje existe na Medicina da USP um serviço dedicado exclusivamente a ajudar os alunos a enfrentar a impotência e o convívio com o sofrimento e a morte.
Mas a realização do sonho também aparece, sofrimentos são amenizados, situações desesperadoras são revertidas. Aos poucos, os alunos percebem que a medicina moderna é poderosa, mas complexa. Com conhecimento teórico, muita prática e um trabalho coordenado de toda a equipe, o sonho pode se tornar realidade.
A arrogância do calouro que acreditava que se bastava, que o sucesso dependia somente de sua dedicação e esforço, desaparece. Ele aprende que o bom médico, sem recursos diagnósticos e equipamentos, sem leitos hospitalares, sem remédios, sem enfermeiros, sem fisioterapeutas, sem nutricionistas e sem um processo de gestão sofisticado e ágil, vai praticar uma medicina medíocre.
Doenças que poderiam ser curadas pioram, doenças controláveis progridem rapidamente e mortes que poderiam ser evitadas ocorrem frequentemente. Aprendem que o médico é somente uma peça importante do sistema de saúde. Esse aprendizado não é teórico, os alunos trabalham no caos semiorganizado do Hospital das Clínicas, fazem estágios em outros hospitais públicos e em centros de saúde. Ao terminar o curso, eles sabem que praticar a medicina sem suporte é tão difícil quanto jogar tênis sem raquete.
Para os recém-formados, a frustração mais difícil de tolerar é não praticar a medicina que aprenderam por falta de infraestrutura. Muitos, incapazes de suportar a impotência diante de pacientes que voltam piores por falta de remédio, frustrados diante de pacientes que não podem ser tratados por falta de resultados de diagnósticos, ou desesperados com a visão de filas infinitas, abandonam a prática médica. Outros, apesar de despreparados para tarefas administrativas, se tornam gestores na esperança de melhorar a infraestrutura pública. Vários preferem trabalhar em hospitais de elite, onde a infraestrutura é quase perfeita. Alguns desenvolvem uma casca mais grossa e aceitam fazer o que é possível, tolerando a frustração. E é claro que há os que se aproveitam da bagunça para fingir que trabalham e receber o salário no final do mês.
Não é de se espantar que nos últimos anos os serviços públicos não tenham conseguido atrair médicos para trabalhar nos postos de saúde e hospitais onde as condições de trabalho são piores. Os salários foram aumentados, mas a maioria dos médicos recusa um emprego fixo de R$ 10 mil em um local sem infraestrutura. O experimento não foi levado adiante, mas seria interessante saber o salário necessário para convencer os melhores alunos de nossas melhores universidades a venderem seus sonhos.
Melhorar as condições de trabalho é a solução óbvia. Mas isso exige que o governo assuma a culpa e deixe de empurrar o problema com a barriga. Mais fácil é culpar os jovens médicos, pouco patrióticos, que só pensam em dinheiro e se recusam a trabalhar em um sistema público de saúde bem organizado, eficiente, sem filas e tão bem avaliado pela população.
Diálogo no Planalto: "A solução é forçar os médicos a trabalhar onde queremos. Mas como é possível forçar alguém que possui um CRM e portanto o direito de praticar sua profissão em qualquer lugar do País? Fácil, basta criar um CRM provisório, que só permite ao recém-formado clinicar no local designado. Cumprida a missão, liberamos o CRM definitivo. Mas isso não é uma forma de coerção? Não se preocupe, o trabalho cívico fará parte formal do treinamento, basta aumentar o curso em dois anos. Boa ideia, quem escreve a medida provisória?"
No dia seguinte: "Um aluno com um CRM provisório é um médico de verdade? Pode tratar pacientes sem supervisão? Claro que sim, senão como ele vai trabalhar no local designado? Mas então ele não é um aluno, é um médico escravizado. Não, escravidão é inconstitucional, ele tem de ser também aluno, vai lá, escreve a MP, depois resolvemos esse detalhe. Sim, chefe, mas que tal incluirmos os médicos importados na MP? Basta dar a eles uma licença provisória para praticar a medicina no País, uma espécie de CRM provisório atrelado ao local de trabalho. Brilhante, vai, escreve a MP que o Diário Oficial fecha daqui a duas horas."
No terceiro dia eles descansaram. Haviam criado o meio médico, meio escravo. A pizza que esperam servir aos manifestantes. Se tudo der certo, agora vamos protestar na frente das Faculdades de Medicina e do CRM, os verdadeiros culpados pela crise na saúde pública.

sábado, 1 de junho de 2013

Phil Spector, David Mamet, 2013

O filme da HBO, versão ficcionalizada da derrocada do genial produtor musical Phil Spector, critica abertamente as arbitrariedades do mal engendrado processo que o levou à prisão. 

Preso desde 2009, Spector teve negados todos seus recursos, após um julgamento anulado e outro supostamente fraudulento -  e aguarda apreciação da Suprema Corte. Caso sua condenação não seja revista, o produtor terá 88 anos de idade quando puder pleitear sua primeira tentativa de liberdade condicional. 

Kafkiano, não menos por acontecer na América. 

Ah! E o filme tem Al Pacino e Helen Mirren!

sábado, 25 de maio de 2013

Norwegian Wood, Haruki Murakami, 1987

Verdadeiro Instant Classic no Japão desde seu lançamento, Norwegian Wood é um livro escrito de maneira simples, que combina com a narrativa quase juvenil; mas reserva inúmeras surpresas, tanto de estilo quanto de conteúdo, capazes de agradar até a leitores mais exigentes. 

Seu maior trunfo talvez seja exatamente a boa fluência, que envolve e instiga-nos a prosseguir na leitura. 

Outro ponto positivo, e absolutamente contemporâneo para um livro que já ultrapassou as bodas de prata, é a completa ausência de maniqueísmos. Toru, o protagonista-narrador, pode ser um pouco perdido e inseguro, mas não julga ninguém sem empatia ou desejo de compreensão, e só assim dá conta de narrar a própria história sem que a loucura do fim dos anos 60 invada (e estrague) a (boa) trama principal. 

Melancólico e tristonho, apesar de poético na medida e das várias surpresas ao final, NW é um livro que fica na memória por um bom tempo após a leitura. E Murakami, ao menos para mim, um nome a se prestar atenção. 

***

Agora devoro, finalmente o 1Q84, do cara. Parece bom logo de cara. 

sexta-feira, 24 de maio de 2013

PRESTAR ATENÇÃO NÃO ADIANTOU

Sempre fui fã da mínima e inspirada poesia, exígua e imensa, do título de um dos livros de Paulo Leminski - "Distraídos Venceremos". 

Essa verdade, impressa em reboco e tinta vermelha sobre o telhado do prelo do Largo da Ordem (na parede do prédio vizinho, na verdade)  encimou inúmeras andanças minhas, por muitos anos, anunciando o tomo até muito depois da subida de Leminski à condição imortal dos poetas idos. 

Sempre a considerei um primor de imaginação e construção, a frase, o poema. E um tapa na cara dos que defendem uma visão utilitarista da pessoa e da existência humanas. 

Agora assisto ao Nelson Motta na Globo, falando do bestseller que virou o Toda Poesia (volume que reúne sua obra poética em simpática capa rosa, com bigodão e tudo, besteseler no Brasil); e me deparo com outra pérola. 

No video antigo, o repórter aborda PLna saída de um bar:

- O distraído vencerá, Paulo?

- Bem... prestar atenção não adiantou, né?

Salve Paulo, ave Leminski-san, que seu senso de humor contagie uns poucos mais. Por todo o sempre, amém. 

terça-feira, 19 de março de 2013

Gracias a la vida

Somos todos privilegiados, dizia meu primo em frente ao túmulo de minha avó Aryclé, em Curitiba - compartilhado por seus pais, meus bisavós, com quem também tive o prazer de conviver, especialmente a bisa Ester.

De maneira muito concisa e profunda, o Zé resumia sua teoria, nascida da expressão dos fatos corriqueiros de sua própria vida, dos caminhos percorridos, da presença dos filhos em volta em um dia que poderia ser só triste, em que perderamos mais um de nossos velhinhos para a eternidade:

Nós temos tanto, dizia ele, grato sem dizer a quem, por óbvio, sejam lá quais suas crenças.

E depois viraríamos nada, emendaria eu, olhos postos no pequeno mausoléu caiado que faz frente ao espaço de meus antepassados, onde duas moças me sorriem, em fotos nada esmaecidas que não fazem jus às datas esculpidas na pedra: 1899, 1879.

Pois justamente, retrucaria o primo, por isto mesmo a gente deve tentar viver bem - sem precisar me explicar, por de antemão entendido que não se falava de posses ou luxos, mas de um viver bem o momento, os seus, e as suas (burradas, manias, qualidades).

Das fotos antigas, impressas diretamente no suporte sólido das lápides, olhares atentos, de sorriso púdico continuam a espiar dentre camisas bordadas e cabelos artistica e meticulosamente esculpidos, exibindo em seus colos os camafeus.

Porque tudo passa, não é? Veja essas moças, há tanto tempo idas deste mundo, o que viram, será? Ninguém jamais saberá. E no entanto hoje, quem as visita, quem ainda as lembra? Lá em Ponta Grossa, no São José, vê-se verdadeiras capelas, imensas, que abrigam famílias inteiras sob nomes conhecidíssimos - Barão disto, Barão daquilo - a se deteriorar sob o descaso da comunidade... É um problema no mundo todo: o que fazer daqueles que foram esquecidos...

Eu acho que alguém cuida daí, intervém meu pai, porque é muito antigo... Poderia estar bem pior, 'tá até caiado de branco...

Trazidos de volta à realidade por um momento, meu primo, meu pai e eu caminhamos uns passos, avaliando um grande cedro, cujas raízes ameaçam a última casa de meus avós - pensando no que fazer, sabendo já que a administração havia lavado as mãos, que "dava problema" derrubar qualquer árvore...

Um pouco mais tarde, a caminho dos carros, mas ainda na grande aleia que margeia os imensos muros de pedra, centenários, do cemitério, lembrei-me de Pessoa, e num arroubo, arrematei para o Zé:

Um dia morrerei, e o dono da Tabacaria, depois a tabuleta por sobre a porta, até a língua em que foram escritos esses versos... morrerá...

Isso mesmo - ele admitiu - claro, pois só temos mesmo este instante...

E saímos dali, gravando na retina imagens deste mundo e desta época, destinadas ao esquecimento, com sorte ainda presentes por uns poucos séculos sobre pedras e tijolos que um dia também, como nós, virarão pó.

(Toda crença nasce do fato de não crermos em nossa própria mortalidade.
Por isto precisamos tão desesperadamente acreditar que não é "só isto").





terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Chiva

Hoje na web iniciam-se os trabalhos da rádio CHIVA, com o melhor da música para você: rock, blues, jazz, reggae, samba e bossa-nova em grande estilo e com muito bom gosto.

Acesse em:

radiowebchiva.com



quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Lord Of The Rings Chess

Pincei por aí, não sei onde, achei fantástico. Elfos e Magos são as figuras, humanos, hobbits e anões fazem os peões, notou?