A CADEIRA NO PENHASCO toma emprestada a reentrância na rocha de um penhasco da ilha de Guernesey - local em que Victor Hugo ficou exilado e onde escreveu algumas de suas maiores obras - como uma metáfora das janelas da internet, sempre em busca de uma visão do alto. Multiply, 2004-2012. No Blogger desde 2012.
segunda-feira, 30 de dezembro de 2013
A segunda morte de Jacobus van Wilpe
sábado, 28 de dezembro de 2013
Sou louco por você (Ho voglia di te), Federico Moccia, 2006
domingo, 15 de dezembro de 2013
Tarefa Hercúlea
segunda-feira, 21 de outubro de 2013
Erna und Alfred
Tocaria ainda algumas vezes para meu bisavô, porém nunca mais no belo recanto que ele criara em honra da esposa, gravemente doente e restrita ao leito. Ali seu espírito de espírito de artesão e inventor tivera um último lampejo, quando com mais de oitenta anos resolvera por abaixo o galinheiro e parte do pomar para presentear minha bisavó com um lugarzinho para tomar sol.
Logo o pedaço de terra, espremido entre a casa e a indústria que capitaneara por tantas décadas, mostraria o que só ele, quase cego, conseguira entrever: um espaço nada tímido de grama, flores e luz – arrematado pelo tal banco de praça para os dois namorarem, é claro.
Hannah, a enfermeira, descia com a Omama no colo, esperando nem sempre em vão por um momento de sua lucidez. Sentados ali, Alfred e Erna Kindler se entendiam através de longos silêncios, interrompidos apenas pelo canto dos passarinhos que os vinham saudar.
“Como está frio lá fora”, dizia o Opapa agora na cozinha, em “seu” lugar à janela, onde tocava o vidro displicentemente, disfarçando a debilidade da visão.
“Ele é tão respeitoso”, dizia Erna baixinho, referindo-se ao “senhor que dorme no meu quarto todas as noites”. “Ele só me faz um carinho na mão e fica lá, ao meu lado, não incomoda nadinha”.
Foram sempre água e vinho, aqueles dois. Bem, pelo menos é o que se conta a respeito. Alfred gostava de praia: construiu uma casa em Caiobá onde ela nunca botou os pés. Já Erna gostava do campo: adorava visitar a chácara da filha mais velha
As filhas e genros se revezariam em cuidados extremados para com ambos, quando a idade e a velhice assim o determinaram – por mais que Alfred jamais admitisse precisar de cuidado algum. Dirigira a velha Kombi bege por anos sem que ninguém soubesse que só lhe restara um quarto da visão de um olho. Mais tarde, já praticamente cego, empertigava-se todo quando alguém sugeria que este bisneto primogênito já lhe ultrapassava a altura. “Nein, nein, ainda não...”
Não se dobrou sequer à morte da esposa, certa madrugada em 1983. Avisado pela doce e firme Hannah – e contra o conselho desta – esperou o dia amanhecer ao lado dela, segurando sua mão pela derradeira vez. Suportou o féretro em pé, consolando mais do que era consolado, até desabar emocionado no carro do filho. Apesar da saúde de ferro, viria a falecer uns meros seis meses depois.
O interessante é que em minha cabecinha de criança, tudo isso era normal, apenas uma parte boa e feliz da vida familiar. Só a idade, e o tempo, despertariam a consciência de ter presenciado um milagre. Os Natais e as páscoas na imensa casa de meus bisavós, o gosto da comida da Omama, os passeios pela fábrica que o tato do Opapa conhecia de cor, as longas conversas na sala de estar, o colo de ancestrais que tão poucos de nós logram conhecer...
De tudo isso, contudo, algo jamais escapou ao meu entendimento, por mais criança que o fosse: o exemplo de um amor que nunca precisou se preocupar em “dar” exemplo – estava sempre lá, simples e direto como um perfume que preenche invisível um cômodo, uma casa, nossas vidas. Verdadeiro milagre, neste mundo carente de um.
quinta-feira, 3 de outubro de 2013
Num átimo
quarta-feira, 17 de julho de 2013
O DPPP e a lapa branca
Meio médico, meio escravo
Meio médico, meio escravo13 de julho de 2013O autor é graduado em Biociencias pela Universidade de São Paulo(1978), mestrado em Ciências (Biologia Celular e Tecidual) pela Universidade de São Paulo(1980), doutorado em Cell Biology And Anatomy pela Cornell University(1984) e pós-doutorado pela University of Cambridge(1986). Atualmente é professor titular da Universidade de São Paulo.Incapaz de convencer jovens médicos a trabalhar no SUS, o governo federal resolveu criar um novo profissional, o meio médico meio escravo. Esse profissional, inspirado nos mitológicos centauros e na famosa meia muçarela meia calabresa, virá em duas versões, nacional e importado. É a pizza que vai ser servida no SUS.Durante anos dei aula para os calouros da Faculdade de Medicina da USP. Eram jovens que haviam escolhido uma profissão em que a derrota é certa. Ninguém consegue escapar da morte. Ingenuamente arrogantes e prepotentes, algo compreensível em quem sempre foi o melhor aluno, sobreviveu dois anos de cursinho, e se classificou entre os 300 melhores no vestibular mais competitivo, acreditavam que se tornando médicos curariam doenças letais, mitigariam o sofrimento, descobririam novos remédios e, lutando contra o único inimigo realmente invencível, ajudariam a humanidade. Durante os dois primeiros anos de curso, a maior dificuldade era mantê-los longe do hospital. Bastava surgir a oportunidade de participar em alguma atividade que envolvesse pacientes e a frequência nas minhas aulas de bioquímica minguava. Isso não era um problema, aqueles alunos aprendiam sozinhos.Mas nos anos seguintes a realidade desabava sobre a cabeça dos alunos. O primeiro cadáver dissecado, cenas de sofrimento, a primeira morte observada de perto, a primeira parada cardíaca que não consegui reverter, um erro que só não foi fatal porque um supervisor estava atento. A primeira noite no pronto-socorro, uma lâmpada quebrada dentro da vagina de uma paciente. Na década de 80 ano, um aluno se suicidava todo ano. Hoje existe na Medicina da USP um serviço dedicado exclusivamente a ajudar os alunos a enfrentar a impotência e o convívio com o sofrimento e a morte.Mas a realização do sonho também aparece, sofrimentos são amenizados, situações desesperadoras são revertidas. Aos poucos, os alunos percebem que a medicina moderna é poderosa, mas complexa. Com conhecimento teórico, muita prática e um trabalho coordenado de toda a equipe, o sonho pode se tornar realidade.A arrogância do calouro que acreditava que se bastava, que o sucesso dependia somente de sua dedicação e esforço, desaparece. Ele aprende que o bom médico, sem recursos diagnósticos e equipamentos, sem leitos hospitalares, sem remédios, sem enfermeiros, sem fisioterapeutas, sem nutricionistas e sem um processo de gestão sofisticado e ágil, vai praticar uma medicina medíocre.Doenças que poderiam ser curadas pioram, doenças controláveis progridem rapidamente e mortes que poderiam ser evitadas ocorrem frequentemente. Aprendem que o médico é somente uma peça importante do sistema de saúde. Esse aprendizado não é teórico, os alunos trabalham no caos semiorganizado do Hospital das Clínicas, fazem estágios em outros hospitais públicos e em centros de saúde. Ao terminar o curso, eles sabem que praticar a medicina sem suporte é tão difícil quanto jogar tênis sem raquete.Para os recém-formados, a frustração mais difícil de tolerar é não praticar a medicina que aprenderam por falta de infraestrutura. Muitos, incapazes de suportar a impotência diante de pacientes que voltam piores por falta de remédio, frustrados diante de pacientes que não podem ser tratados por falta de resultados de diagnósticos, ou desesperados com a visão de filas infinitas, abandonam a prática médica. Outros, apesar de despreparados para tarefas administrativas, se tornam gestores na esperança de melhorar a infraestrutura pública. Vários preferem trabalhar em hospitais de elite, onde a infraestrutura é quase perfeita. Alguns desenvolvem uma casca mais grossa e aceitam fazer o que é possível, tolerando a frustração. E é claro que há os que se aproveitam da bagunça para fingir que trabalham e receber o salário no final do mês.Não é de se espantar que nos últimos anos os serviços públicos não tenham conseguido atrair médicos para trabalhar nos postos de saúde e hospitais onde as condições de trabalho são piores. Os salários foram aumentados, mas a maioria dos médicos recusa um emprego fixo de R$ 10 mil em um local sem infraestrutura. O experimento não foi levado adiante, mas seria interessante saber o salário necessário para convencer os melhores alunos de nossas melhores universidades a venderem seus sonhos.Melhorar as condições de trabalho é a solução óbvia. Mas isso exige que o governo assuma a culpa e deixe de empurrar o problema com a barriga. Mais fácil é culpar os jovens médicos, pouco patrióticos, que só pensam em dinheiro e se recusam a trabalhar em um sistema público de saúde bem organizado, eficiente, sem filas e tão bem avaliado pela população.Diálogo no Planalto: "A solução é forçar os médicos a trabalhar onde queremos. Mas como é possível forçar alguém que possui um CRM e portanto o direito de praticar sua profissão em qualquer lugar do País? Fácil, basta criar um CRM provisório, que só permite ao recém-formado clinicar no local designado. Cumprida a missão, liberamos o CRM definitivo. Mas isso não é uma forma de coerção? Não se preocupe, o trabalho cívico fará parte formal do treinamento, basta aumentar o curso em dois anos. Boa ideia, quem escreve a medida provisória?"No dia seguinte: "Um aluno com um CRM provisório é um médico de verdade? Pode tratar pacientes sem supervisão? Claro que sim, senão como ele vai trabalhar no local designado? Mas então ele não é um aluno, é um médico escravizado. Não, escravidão é inconstitucional, ele tem de ser também aluno, vai lá, escreve a MP, depois resolvemos esse detalhe. Sim, chefe, mas que tal incluirmos os médicos importados na MP? Basta dar a eles uma licença provisória para praticar a medicina no País, uma espécie de CRM provisório atrelado ao local de trabalho. Brilhante, vai, escreve a MP que o Diário Oficial fecha daqui a duas horas."No terceiro dia eles descansaram. Haviam criado o meio médico, meio escravo. A pizza que esperam servir aos manifestantes. Se tudo der certo, agora vamos protestar na frente das Faculdades de Medicina e do CRM, os verdadeiros culpados pela crise na saúde pública.
sábado, 1 de junho de 2013
Phil Spector, David Mamet, 2013
sábado, 25 de maio de 2013
Norwegian Wood, Haruki Murakami, 1987
sexta-feira, 24 de maio de 2013
PRESTAR ATENÇÃO NÃO ADIANTOU
terça-feira, 19 de março de 2013
Gracias a la vida
De maneira muito concisa e profunda, o Zé resumia sua teoria, nascida da expressão dos fatos corriqueiros de sua própria vida, dos caminhos percorridos, da presença dos filhos em volta em um dia que poderia ser só triste, em que perderamos mais um de nossos velhinhos para a eternidade:
Nós temos tanto, dizia ele, grato sem dizer a quem, por óbvio, sejam lá quais suas crenças.
E depois viraríamos nada, emendaria eu, olhos postos no pequeno mausoléu caiado que faz frente ao espaço de meus antepassados, onde duas moças me sorriem, em fotos nada esmaecidas que não fazem jus às datas esculpidas na pedra: 1899, 1879.
Pois justamente, retrucaria o primo, por isto mesmo a gente deve tentar viver bem - sem precisar me explicar, por de antemão entendido que não se falava de posses ou luxos, mas de um viver bem o momento, os seus, e as suas (burradas, manias, qualidades).
Das fotos antigas, impressas diretamente no suporte sólido das lápides, olhares atentos, de sorriso púdico continuam a espiar dentre camisas bordadas e cabelos artistica e meticulosamente esculpidos, exibindo em seus colos os camafeus.
Porque tudo passa, não é? Veja essas moças, há tanto tempo idas deste mundo, o que viram, será? Ninguém jamais saberá. E no entanto hoje, quem as visita, quem ainda as lembra? Lá em Ponta Grossa, no São José, vê-se verdadeiras capelas, imensas, que abrigam famílias inteiras sob nomes conhecidíssimos - Barão disto, Barão daquilo - a se deteriorar sob o descaso da comunidade... É um problema no mundo todo: o que fazer daqueles que foram esquecidos...
Eu acho que alguém cuida daí, intervém meu pai, porque é muito antigo... Poderia estar bem pior, 'tá até caiado de branco...
Trazidos de volta à realidade por um momento, meu primo, meu pai e eu caminhamos uns passos, avaliando um grande cedro, cujas raízes ameaçam a última casa de meus avós - pensando no que fazer, sabendo já que a administração havia lavado as mãos, que "dava problema" derrubar qualquer árvore...
Um pouco mais tarde, a caminho dos carros, mas ainda na grande aleia que margeia os imensos muros de pedra, centenários, do cemitério, lembrei-me de Pessoa, e num arroubo, arrematei para o Zé:
Um dia morrerei, e o dono da Tabacaria, depois a tabuleta por sobre a porta, até a língua em que foram escritos esses versos... morrerá...
Isso mesmo - ele admitiu - claro, pois só temos mesmo este instante...
E saímos dali, gravando na retina imagens deste mundo e desta época, destinadas ao esquecimento, com sorte ainda presentes por uns poucos séculos sobre pedras e tijolos que um dia também, como nós, virarão pó.
(Toda crença nasce do fato de não crermos em nossa própria mortalidade.
Por isto precisamos tão desesperadamente acreditar que não é "só isto").
terça-feira, 19 de fevereiro de 2013
Chiva
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