quarta-feira, 17 de julho de 2013

O DPPP e a lapa branca

Trabalhavam ambos no mesmo hospital, o velho e o novo médico, o segundo antecedendo o primeiro na ordem dos plantões. 

Cirurgião das antigas, que confia mais "na mão" que nos exames complementares, o velho opera tudo (ou quase). Apertou a pança, retirou a mão e o paciente gritou de dor, é "sala!" - coisa que lhe valeu o apelido de Dr. Salas. 

O novo - nem tão novo assim - é de outra época, só opera quando tem certeza, executando uma semiologia caprichada, deixando o paciente em observação, confiando na evolução clínica soberana. 

No fundo, não são tão diferentes assim. Ambos bons médicos, bons cirurgiões, que sofrem pelas precárias condições do hospital em que trabalham. 

Ultrassonografia? Nem pensar, só na cidade vizinha. Tomografia? Sonho: só na capital. Enquanto isso, fazem o possível, cada um a seu modo. É claro que o conflito não tarda a chegar. 

Dr. Salas opera tudo; então, obviamente, de vez em quando opera uma GECA, uma ITU, um "mittelschmertz". 

Dr. Novinho opera menos, deixa de vez em quando algum paciente "pendurado" para o próximo plantão, o que lhe vale a pecha - dada pelo Salas - de DPPP ("deixa para o próximo plantão").

Uns sarcásticos, esses médicos. 

Um dia invertem a ordem dos plantões e Dr. Salas aguarda Dr. Novinho no alojamento médico. Quando este passa, o outro tripudia, comentando com um terceiro colega:

"Se um dia eu escrever um livro, vai se chamar 'O DPPP' ".

De bate-pronto, Dr. Novinho responde: 

"Tudo bem, Dr. Salas. O meu se chamará 'A Lapa Branca' ". E riram alto is dois, sepultando qualquer magoa. 

Uns sarcásticos, esses médicos. 




 

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