O primeiro, considerado por muitos o melhor romance americano do século XX, lançado em 1962, ainda hoje vende mais de um milhão de exemplares por ano em seu país de origem. Tornou-se um filme, também clássico, ícone dos "filmes de tribunal", objeto de estudo e admiração nas escolas de direito.
Sua autora ainda vive, aos mais de noventa anos de idade, e agora nos brinda com a continuação de seu festejado (e até então único) livro. Ganhamos nós, leitores, por podermos conhecer um pouco mais da vida de Atticus Finch, de sua filha Scout, e de outros personagens inesquecíveis.
Atticus é o advogado branco, honesto, cristão protestante, descendente direto dos primeiros imigrantes de Maycomb, cidade fictícia no Alabama, onde se passa a história. Nos anos trinta, cabe-lhe defender um negro injustamente acusado de estupro, com todas as consequências sociais e políticas condizentes à repercussão racista de um ato destes na época. Jem e Scout são seus filhos pré-adolescentes, crianças criadas à solta em uma cidade pequena e isolada; acompanham a aventura do pai em grande estilo, sendo trazidos ao centro da ação quando esta se soluciona.
Romance leve, mas profundo, de linguagem fácil porém esperta, recheada de sacadas cômicas que passam quase despercebidas, "O Sol..." nos fala de outra época, em que as verdades eram mais claras e maniqueístas, as liberdades individuais não estavam em questão (ou pelo menos não faziam frente aos "bons costumes" que deveriam ser preservados em nome da ordem social), em que os preconceitos não eram só tolerados, mas até estimulados. O clima onírico, quase infantil, corrobora para o sucesso instantâneo e duradouro, do livro.
Já em "Vá, ...", Harper Lee vai mais longe, ao abordar o clima de guerra racial iminente que contagia o sul dos Estados Unidos de então. Scout já é uma jovem de vinte e seis anos quando a história é retomada; mora em Nova Iorque e vem a Maycomb passar férias. Está mudada, mas não em sua essência: apenas atravessa, não sem dificuldades, a difícil tarefa de amadurecer. Não se encontra em NY, mas já foi transformada por ela; quando chega ao Alabama, não reconhece mais suas raízes, sou origem, sua família, pondo tudo em xeque, a si própria com especial rigor.
Enxuto e direto, o segundo livro da Sra. Lee é tão bem escrito quanto o primeiro. Talvez não tão trabalhado, mas não de menor alcance.
Ao peitar a difícil tarefa de explicar como caráter, virtude e ética podem misturar-se com o que se faz necessário para a sobrevivência em comunidade, Lee acerta em cheio em um problema atemporal do ser humano. Até onde podemos aceitar o que é inaceitável, até onde vão os fanatismos, como conviver com os monstros do cotidiano? Sem respostas prontas, suas reflexões cabem com uma luva, também, para os tempos perigosos em que vivemos hoje.
