Meio médico,
meio escravo
13 de julho de 2013
Fernando Reinach - O Estado de S.Paulo
O autor é graduado em Biociencias pela
Universidade de São Paulo(1978), mestrado em Ciências (Biologia Celular e
Tecidual) pela Universidade de São Paulo(1980), doutorado em Cell Biology And
Anatomy pela Cornell University(1984) e pós-doutorado pela University of Cambridge(1986).
Atualmente é professor titular da Universidade de São Paulo.
Incapaz de convencer jovens médicos a
trabalhar no SUS, o governo federal resolveu criar um novo profissional, o meio
médico meio escravo. Esse profissional, inspirado nos mitológicos centauros e
na famosa meia muçarela meia calabresa, virá em duas versões, nacional e
importado. É a pizza que vai ser servida no SUS.
Durante anos dei aula para os
calouros da Faculdade de Medicina da USP. Eram jovens que haviam escolhido uma
profissão em que a derrota é certa. Ninguém consegue escapar da morte.
Ingenuamente arrogantes e prepotentes, algo compreensível em quem sempre foi o
melhor aluno, sobreviveu dois anos de cursinho, e se classificou entre os 300
melhores no vestibular mais competitivo, acreditavam que se tornando médicos
curariam doenças letais, mitigariam o sofrimento, descobririam novos remédios
e, lutando contra o único inimigo realmente invencível, ajudariam a humanidade.
Durante os dois primeiros anos de curso, a maior dificuldade era mantê-los
longe do hospital. Bastava surgir a oportunidade de participar em alguma
atividade que envolvesse pacientes e a frequência nas minhas aulas de
bioquímica minguava. Isso não era um problema, aqueles alunos aprendiam
sozinhos.
Mas nos anos seguintes a realidade
desabava sobre a cabeça dos alunos. O primeiro cadáver dissecado, cenas de
sofrimento, a primeira morte observada de perto, a primeira parada cardíaca que
não consegui reverter, um erro que só não foi fatal porque um supervisor estava
atento. A primeira noite no pronto-socorro, uma lâmpada quebrada dentro da vagina
de uma paciente. Na década de 80 ano, um aluno se suicidava todo ano. Hoje
existe na Medicina da USP um serviço dedicado exclusivamente a ajudar os alunos
a enfrentar a impotência e o convívio com o sofrimento e a morte.
Mas a realização do sonho também
aparece, sofrimentos são amenizados, situações desesperadoras são revertidas.
Aos poucos, os alunos percebem que a medicina moderna é poderosa, mas complexa.
Com conhecimento teórico, muita prática e um trabalho coordenado de toda a
equipe, o sonho pode se tornar realidade.
A arrogância do calouro que
acreditava que se bastava, que o sucesso dependia somente de sua dedicação e
esforço, desaparece. Ele aprende que o bom médico, sem recursos diagnósticos e
equipamentos, sem leitos hospitalares, sem remédios, sem enfermeiros, sem
fisioterapeutas, sem nutricionistas e sem um processo de gestão sofisticado e
ágil, vai praticar uma medicina medíocre.
Doenças que poderiam ser curadas
pioram, doenças controláveis progridem rapidamente e mortes que poderiam ser evitadas
ocorrem frequentemente. Aprendem que o médico é somente uma peça importante do
sistema de saúde. Esse aprendizado não é teórico, os alunos trabalham no caos
semiorganizado do Hospital das Clínicas, fazem estágios em outros hospitais
públicos e em centros de saúde. Ao terminar o curso, eles sabem que praticar a
medicina sem suporte é tão difícil quanto jogar tênis sem raquete.
Para os recém-formados, a frustração
mais difícil de tolerar é não praticar a medicina que aprenderam por falta de
infraestrutura. Muitos, incapazes de suportar a impotência diante de pacientes
que voltam piores por falta de remédio, frustrados diante de pacientes que não
podem ser tratados por falta de resultados de diagnósticos, ou desesperados com
a visão de filas infinitas, abandonam a prática médica. Outros, apesar de
despreparados para tarefas administrativas, se tornam gestores na esperança de
melhorar a infraestrutura pública. Vários preferem trabalhar em hospitais de
elite, onde a infraestrutura é quase perfeita. Alguns desenvolvem uma casca
mais grossa e aceitam fazer o que é possível, tolerando a frustração. E é claro
que há os que se aproveitam da bagunça para fingir que trabalham e receber o
salário no final do mês.
Não é de se espantar que nos últimos
anos os serviços públicos não tenham conseguido atrair médicos para trabalhar
nos postos de saúde e hospitais onde as condições de trabalho são piores. Os
salários foram aumentados, mas a maioria dos médicos recusa um emprego fixo de
R$ 10 mil em um local sem infraestrutura. O experimento não foi levado adiante,
mas seria interessante saber o salário necessário para convencer os melhores
alunos de nossas melhores universidades a venderem seus sonhos.
Melhorar as condições de trabalho é a
solução óbvia. Mas isso exige que o governo assuma a culpa e deixe de empurrar
o problema com a barriga. Mais fácil é culpar os jovens médicos, pouco
patrióticos, que só pensam em dinheiro e se recusam a trabalhar em um sistema
público de saúde bem organizado, eficiente, sem filas e tão bem avaliado pela
população.
Diálogo no Planalto: "A solução
é forçar os médicos a trabalhar onde queremos. Mas como é possível forçar
alguém que possui um CRM e portanto o direito de praticar sua profissão em
qualquer lugar do País? Fácil, basta criar um CRM provisório, que só permite ao
recém-formado clinicar no local designado. Cumprida a missão, liberamos o CRM
definitivo. Mas isso não é uma forma de coerção? Não se preocupe, o trabalho
cívico fará parte formal do treinamento, basta aumentar o curso em dois anos.
Boa ideia, quem escreve a medida provisória?"
No dia seguinte: "Um aluno com
um CRM provisório é um médico de verdade? Pode tratar pacientes sem supervisão?
Claro que sim, senão como ele vai trabalhar no local designado? Mas então ele
não é um aluno, é um médico escravizado. Não, escravidão é inconstitucional,
ele tem de ser também aluno, vai lá, escreve a MP, depois resolvemos esse
detalhe. Sim, chefe, mas que tal incluirmos os médicos importados na MP? Basta
dar a eles uma licença provisória para praticar a medicina no País, uma espécie
de CRM provisório atrelado ao local de trabalho. Brilhante, vai, escreve a MP
que o Diário Oficial fecha daqui a duas horas."
No terceiro dia eles descansaram.
Haviam criado o meio médico, meio escravo. A pizza que esperam servir aos
manifestantes. Se tudo der certo, agora vamos protestar na frente das
Faculdades de Medicina e do CRM, os verdadeiros culpados pela crise na saúde
pública.