domingo, 17 de agosto de 2014

Muitas Margens, de Miguel Sanches Neto (Arte& Letra Editora, Curitiba, 2014)

Falar do novo projeto literário de um amigo pode ser temerário: há sempre o viés da amizade a obscurecer críticas e elogios. Não vem ao caso, a este caso, contudo, pois não há como NÃO falar do livro de um amigo - quanto mais se este amigo é o multitalentoso professor Miguel Sanches Neto, que tão brilhantemente se entregou a este belo projeto, quase impressionista, de passar “Sete Dias Na Rodovia” (como entrega o subtítulo do livro).

Algumas explicações se fazem necessárias: a rodovia em questão é BR 376, que Miguel percorreu em uma van, partindo de Apucarana, indo até Curitiba pelos Campos Gerais do Paraná. Foi por ela, trinta anos atrás, que o autor deixou sua cidade natal e ganhou o mundo. Agora, vagamente inspirado na viagem que Julio Cortázar e Carol Dunlop fizeram na França, em 1982, Miguel fez o percurso lentamente, chamando-o de “Residência Literária na Rodovia”.

Ainda que um pouco incomodado com o fator “espetáculo” que rondou a expedição – como deixou claro, tanto no livro como nas palavras que proferiu no lançamento da obra – Miguel soube equacionar bem o interesse despertado pelo caráter inusitado do projeto (que reuniu equipes de filmagem e fotografia durante todo o percurso), com a intenção bem diversa de viver a estrada em sua plenitude, com calma e sem pressa, colhendo aqui e ali inspiração para um livro que, obviamente, mesmo o autor não sabia de antemão como haveria de ser.

Reunindo haicais escritos in loco, alguns poucos contos e, no mais, uma prosa tranquila, coloquial e bem posta; Muitas Margens surpreende por não se enquadrar em modelos já estabelecidos. Com certeza não se trata de um “livro de viagem”, uma memória ou um relato jornalístico. Da forma como ficou, em seu aspecto final, entretanto, o tomo não deixa de dialogar com obras e autores que também se interessaram, e imprimiram seus nomes entre aqueles que fizeram do assunto "viagem" tema relevante da literatura, como o próprio Cortázar, Goethe, Woolf e outros.

Dos últimos extraio duas citações que cabem como uma luva para repensarmos os temas, tão amplos, que Miguel inclui em sua obra. 

Goethe disse uma vez: “Não viajamos apenas para chegar, mas para existir enquanto viajamos”. É o que o autor obtém, contando-nos muito mais de seus pensamentos e sentimentos que da estrada propriamente dita.

Já Virginia Woolf certa vez sugeriu: "Que cada homem, ouvi dizer outro dia, ponha-se a anotar os detalhes de uma jornada de trabalho; a posteridade há de ficar tão contente com o catálogo quanto ficaríamos nós, se tivéssemos um tal registro de como o porteiro do Globe e o homem responsável pelos portões do Park passaram o sábado, 18 de março, do ano da graça de 1568." Isto também Miguel logra obter: vasto retrato humano, fruto de sua entrega ao projeto e do olhar compassivo e amoroso que devota a seus personagens, característica (a meu ver) marcante de sua literatura. Daqui a quinhentos anos, quando nossos tatatatara...netos quiserem saber como vivíamos aqui no sertão, é o livro de Miguel que procurarão, cientes de que possuem um tesouro.

Em dezembro de 1986, saí de Ponta Grossa pela mesma estrada, rumo à faculdade de Medicina em Curitiba. Foram mais de seis anos de idas e vindas, suficientes para conhecer de cor as curvas e rios deste trecho da mesma estrada. Nela, vivi bons e maus momentos, que reli sob a luz da sua experiência, amigo Miguel, e acho que saio da leitura um pouco mais próximo de minha própria terra, e, de quebra, conhecendo melhor o amigo.

Duro foi encontrar, já próximo ao final, menção ao meu grande amigo de infância e adolescência, morto no longínquo ano de 1998, cuja cruz você visitou no caminho. Naquele momento as lágrimas vieram, incontroláveis, e só pararam quando fechei a leitura, encantado e agradecido.











sexta-feira, 8 de agosto de 2014

A PRIMEIRA HISTÓRIA DO MUNDO

Comprei “A Primeira História Do Mundo” ali no Paço Imperial, naquela livraria à moda antiga – no bom sentido – que atende pelo nome de “Arlequim”.

Fiquei pouco lá, menos do que gostaria, tendo em vista a riqueza do acervo e o ambiente tranquilo, propício a leituras e devaneios. Mulher, filho e sogra num fim de tarde memorável, sabe como é: passeio pelo Centro antigo, exposição no MAR, outra no CCBB, almoço no Arco do Telles, última parada no Paço -  para o Thomas aprender um pouco mais sobre a cidade de reis e imperadores.

Quando vi seu livro, prezado Alberto Mussa, já o sabia; O Globo publicara, uns dias antes, a resenha. Não me assustei com seu aviso na contracapa (“Quero, assim, prevenir o comprador indeciso, que folheia um exemplar, mas ainda não pagou o preço”), pois o tema me interessava: um relato do primeiro assassinato ocorrido no Rio de Janeiro, então uma vilazinha com cerca de quatrocentos habitantes.

Voltamos para casa, exaustos, ainda que o calorzinho de julho seja brando na capital; loucos por um banho, comer e dormir. É o que fazem todos, mulher, filho e sogra, menos eu. A tevê grita, as buzinas no viaduto ali ao lado já passam da hora habitual, o menino assiste, atento, a um vídeo atrás do outro no YouTube, ele e a mãe já dormem. Menos eu.

Transportado momentaneamente para outro mundo, acompanho ansioso o desenrolar de fatos tão antigos, tão distantes, que acho que nem estou mais por aqui: o pensamento viaja, célere, pelas costas da baía, pelas águas do Rio Carioca, pelas ruazinhas estreitas do povoado encolhido sobre o Morro do Castelo, pela busca insana (que só consigo imaginar!) do autor por suspeitos, inocentes, culpados.

Organizado em meros cinco capítulos, o livro de Mussa entrega tudo que promete, e mais. À moda dos romances policiais, somos apresentados ao contexto do crime, acompanhamos a investigação levada ao cabo, à época, compartilhamos das suspeitas do autor sobre a virtude da esposa da vítima, e por fim somos apresentados aos suspeitos, enfileirados no terceiro capítulo que ocupa quase todo o tomo.

É quando a obra nos pega, de jeito e de vez. Em suas páginas desfilam heróis e anti-heróis, prostitutas e madamas, índios, negros, capitães-do-mato, degredados e ilustres desconhecidos, descritos à perfeição, de modo a nos brindar com um painel tão vivo e verossímil que nos esquecemos, boa parte do tempo, de onde surgiram: da leitura e do estudo, obviamente lento e difícil, de documentos públicos de quase quinhentos anos atrás.

Do quarto e do quinto capítulo, porém, nada posso adiantar, sob pena de estragar as surpresas, todas fantásticas, que o autor nos reserva ao final. Apesar de imbuído de um desejo irrefreável (e aparente) de concluir sua história, Mussa se contém, dá tempo ao tempo, e constrói suas conclusões com estilo e elegância, dando à história uma profundidade humana, e até mesmo literária, inaudita. Sua solução dantesca, apesar de arriscada, dá certo, e saímos da história certos de que a tal pesquisa dos fatos de nada valeria sem o amálgama do escritor talentoso, que transforma água em vinho.

À parte o fascínio do enredo, contudo, ganha relevo o pano de fundo histórico, a compreensão e a empatia necessários para tornar vivas essas personagens que tinham tudo para permanecerem desconhecidas de nós. Especialmente os índios: é deles a cultura, os costumes e o misticismo que permeia tudo nesta “Primeira História”. É a visão deles que alinhava os mais belos painéis daquele Rio de Janeiro de antanho, tem a ver com eles, os índios, até mesmo o final. E olha que eu não estou contando nada, viu?

Harold Nicolson (1886-1986), mestre resenhista inglês*, dizia, ao defender sua tarefa: “Dirijo-me aos autores dos livros que resenho; quero dizer-lhes por que gosto ou não gosto de seu trabalho; e acredito que de tal diálogo o leitor comum há de extrair alguma informação.” Aqui neste espaço, leigo e diletante, não temos tamanha pretensão. Fica esta quase carta ao autor. E uma vontade imensa de ver seu livro em cada casa, em cada sala de aula, para que conheçamos todos, divertindo-nos à vera, um pouco mais sobre este nosso louco, jovem e desconhecido país.



* Citado por Virginia Woolf em seu ensaio “Resenhando” (1939).