Falar do novo projeto literário de um amigo pode ser temerário: há
sempre o viés da amizade a obscurecer críticas e elogios. Não vem ao caso, a
este caso, contudo, pois não há como NÃO falar do livro de um amigo - quanto
mais se este amigo é o multitalentoso professor Miguel Sanches Neto, que tão
brilhantemente se entregou a este belo projeto, quase impressionista, de passar
“Sete Dias Na Rodovia” (como entrega
o subtítulo do livro).
Algumas explicações se fazem necessárias: a rodovia em questão é BR
376, que Miguel percorreu em uma van, partindo de Apucarana, indo até Curitiba pelos
Campos Gerais do Paraná. Foi por ela, trinta anos atrás, que o autor deixou sua
cidade natal e ganhou o mundo. Agora, vagamente inspirado na viagem que Julio
Cortázar e Carol Dunlop fizeram na França, em 1982, Miguel fez o percurso lentamente, chamando-o de “Residência Literária
na Rodovia”.
Ainda que um pouco incomodado com o fator “espetáculo” que rondou a
expedição – como deixou claro, tanto no livro como nas palavras que proferiu no
lançamento da obra – Miguel soube equacionar bem o interesse despertado pelo
caráter inusitado do projeto (que reuniu equipes de filmagem e fotografia durante
todo o percurso), com a intenção bem diversa de viver a estrada em sua plenitude, com calma e sem pressa, colhendo
aqui e ali inspiração para um livro que, obviamente, mesmo o autor não sabia de antemão como
haveria de ser.
Reunindo haicais escritos in loco,
alguns poucos contos e, no mais, uma prosa tranquila, coloquial e bem posta; Muitas Margens surpreende por não se
enquadrar em modelos já estabelecidos. Com certeza não se trata de um “livro de
viagem”, uma memória ou um relato jornalístico. Da forma como ficou, em seu
aspecto final, entretanto, o tomo não deixa de dialogar com obras e autores que
também se interessaram, e imprimiram seus nomes entre aqueles que fizeram do
assunto "viagem" tema relevante da literatura, como o próprio Cortázar, Goethe, Woolf e
outros.
Dos últimos extraio duas citações que cabem como uma luva para
repensarmos os temas, tão amplos, que Miguel inclui em sua obra.
Goethe disse
uma vez: “Não viajamos apenas para
chegar, mas para existir enquanto viajamos”. É o que o autor obtém, contando-nos
muito mais de seus pensamentos e sentimentos que da estrada propriamente dita.
Já Virginia Woolf certa vez sugeriu: "Que
cada homem, ouvi dizer outro dia, ponha-se a anotar os detalhes de uma jornada
de trabalho; a posteridade há de ficar tão contente com o catálogo quanto
ficaríamos nós, se tivéssemos um tal registro de como o porteiro do Globe e o
homem responsável pelos portões do Park passaram o sábado, 18 de março, do ano
da graça de 1568." Isto também Miguel logra obter: vasto retrato
humano, fruto de sua entrega ao projeto e do olhar compassivo e amoroso que
devota a seus personagens, característica (a meu ver) marcante de sua
literatura. Daqui a quinhentos anos, quando nossos tatatatara...netos quiserem
saber como vivíamos aqui no sertão, é o livro de Miguel que procurarão, cientes
de que possuem um tesouro.
Em dezembro de 1986, saí de Ponta Grossa pela mesma estrada, rumo à
faculdade de Medicina em Curitiba. Foram mais de seis anos de idas e vindas,
suficientes para conhecer de cor as curvas e rios deste trecho da mesma
estrada. Nela, vivi bons e maus momentos, que reli sob a luz da sua experiência,
amigo Miguel, e acho que saio da leitura um pouco mais próximo de minha própria terra,
e, de quebra, conhecendo melhor o amigo.


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