quinta-feira, 2 de julho de 2015

Odiar Cazuza

Na minha adolescência, Cazuza já era um sucesso. Assisti Bete  Balanço, o filme, e saí extasiado com a música, com as letras, com a cena de sexo da Bloch com o Corona (que me assombraria por anos), e principalmente com aquele nanico, o tal Cazuza - moleque Zona Sul, meio bicha, que cantava pra caralho e fingia não ligar. Mas já era moda, também, desde o início, odiar CAZUZA. 

No ano seguinte, o Barão Vermelho veio a Ponta Grossa, onde tocou para um ginásio Borell du Vernay socado de gente, com muita expectativa pelo melhor show do rock brasileiro de então. 

Cazuza surtava com as latas de cerveja que os "cozidos" jogavam no palco, e lá pelas tantas, se mandou. Antes, balançara o LeSon churi no quadril: 

- É, Ponta Grossa, minha ponta é mais grossa que a de vocês... Otários...

Frejat manteve o ritmo, e nada do Caju voltar. Quando aquele ia assumir os vocais, a bicha voltou, meio putinho, tomou-lhe o microfone e voltou a cantar. 

Assim era Cazuza, um monstro no palco, um artista completo, um entertainer, um poeta, mas muito, muito doido. 

Amigos em comum me contaram, no Rio, das loucuras que o cara fazia, chapadaço, nas festas, nas turnês. Na escola e entre os amigos, declarar-se fã do Cazuza era meio que assumir uma certa boiolagem, se é que vocês me entendem. Era um ato de coragem, embora todos cantassem suas canções. 

 O país inteiro comentava seu comportamento dissoluto (sic), em uma época de intenso preconceito. Como interno de medicina, fui voluntário para o estágio na Infectologia, onde acompanhei por seis semanas o sofrimento indizível pelo qual as vítimas da síndrome passavam até a morte inevitável. Meus colegas de turma nos evitavam, os quatro malucos que atendiam "os aidéticos": ninguém nos beijava ou dava a mão; almoçávamos em um canto isolado. 

Quando o flagelo de Deus (sic) se abateu sobre ele (sic), os cristãos verdadeiros lhe negaram a compaixão. "Mereceu!", diziam. "Viado fdp!", falavam. "Viu no que dá dar a bunda? Tá com aids." "É a maconha!", afirmavam. "É castigo divino!", pleiteavam outros. 

Imagina hoje como seria - com a internet; foi assim na base da fofoca, das revistas de celebridades, que cresceram os mitos sobre a doença e o sumiço de Cazuza. 

Em um belo domingo de sol, meses depois, Cazuza estaria em todas as bancas do país, na capa da revista de maior circulação, magro como um faquir, assumindo a sua doença. 

Foi chocante. Foi doloroso. E se não mudou a opinião pública por completo, arrastou multidões a suas legiões de fãs. Como cantor, estava onipresente nas rádios; como poeta, redefinia e revirava o país. 

Ainda assim, com todo o sucesso e a aclamação popular aos seus últimos discos, em especial o gravado "ao vivo" - O TEMPO NÃO PARA; com a sedimentação de sua obra ao longo de mais de duas décadas e com a diminuição do preconceito para com homossexuais e portadores da síndrome, Cazuza gera polêmica. Ainda hoje há aqueles que não entendem sua liberdade, sua poesia e seu papel transgressores. Sua obra, contudo, ficou como uma das mais importantes da música brasileira no seculo XX. 

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