segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Erna und Alfred

Alfred Kindler, 1898-1983 (retrato por Kurt Boiger).



Erna und Alfred. Meus bisavós. 


Toque mais um pouco, meu filho”, dizia o pequeno grande homem, sentado a meu lado no banco de praça instalado no jardim. Um pouco surpreso com seu interesse, eu atendi seu pedido com prazer, esgotando rapidamente o escasso repertório de violão clássico aprendido até então.

Tocaria ainda algumas vezes para meu bisavô, porém nunca mais no belo recanto que ele criara em honra da esposa, gravemente doente e restrita ao leito. Ali seu espírito de espírito de artesão e inventor tivera um último lampejo, quando com mais de oitenta anos resolvera por abaixo o galinheiro e parte do pomar para presentear minha bisavó com um lugarzinho para tomar sol.

Logo o pedaço de terra, espremido entre a casa e a indústria que capitaneara por tantas décadas, mostraria o que só ele, quase cego, conseguira entrever: um espaço nada tímido de grama, flores e luz – arrematado pelo tal banco de praça para os dois namorarem, é claro.

Hannah, a enfermeira, descia com a Omama no colo, esperando nem sempre em vão por um momento de sua lucidez. Sentados ali, Alfred e Erna Kindler se entendiam através de longos silêncios, interrompidos apenas pelo canto dos passarinhos que os vinham saudar.

Como está frio lá fora”, dizia o Opapa agora na cozinha, em “seu” lugar à janela, onde tocava o vidro displicentemente, disfarçando a debilidade da visão.

Ele é tão respeitoso”, dizia Erna baixinho, referindo-se ao “senhor que dorme no meu quarto todas as noites”. “Ele só me faz um carinho na mão e fica lá, ao meu lado, não incomoda nadinha”.

Foram sempre água e vinho, aqueles dois. Bem, pelo menos é o que se conta a respeito. Alfred gostava de praia: construiu uma casa em Caiobá onde ela nunca botou os pés. Já Erna gostava do campo: adorava visitar a chácara da filha mais velha em Ponta Grossa. O boliche dele nas quintas-feiras à noite era sagrado, mas ela nunca foi lá muito fã de noitadas – preferia a família reunida, a casa cheia e os grossos cobertores de pena-de-ganso em uso. Mas eram ambos muito hábeis com as mãos. As compotas e conservas feitas pela Omama duraram mais que a doença ou ela própria, sendo abertas intactas anos depois e encontradas como se tivessem sido feitas ‘inda ontem. E das indústrias Kindler e Cia., desde os anos trinta funcionando na Rua Senador Xavier da Silva, pertinho da fábrica dos irmãos Mueller, saíram torneiras, chuveiros, bombas de encher bolas e pneus de bicicleta, bem como todo tipo imaginável de artefatos de metal, até instrumentos cirúrgicos quando estes eram caríssimos e raros de se encontrar.

As filhas e genros se revezariam em cuidados extremados para com ambos, quando a idade e a velhice assim o determinaram – por mais que Alfred jamais admitisse precisar de cuidado algum. Dirigira a velha Kombi bege por anos sem que ninguém soubesse que só lhe restara um quarto da visão de um olho. Mais tarde, já praticamente cego, empertigava-se todo quando alguém sugeria que este bisneto primogênito já lhe ultrapassava a altura. “Nein, nein, ainda não...

Não se dobrou sequer à morte da esposa, certa madrugada em 1983. Avisado pela doce e firme Hannah – e contra o conselho desta – esperou o dia amanhecer ao lado dela, segurando sua mão pela derradeira vez. Suportou o féretro em pé, consolando mais do que era consolado, até desabar emocionado no carro do filho. Apesar da saúde de ferro, viria a falecer uns meros seis meses depois.

O interessante é que em minha cabecinha de criança, tudo isso era normal, apenas uma parte boa e feliz da vida familiar. Só a idade, e o tempo, despertariam a consciência de ter presenciado um milagre. Os Natais e as páscoas na imensa casa de meus bisavós, o gosto da comida da Omama, os passeios pela fábrica que o tato do Opapa conhecia de cor, as longas conversas na sala de estar, o colo de ancestrais que tão poucos de nós logram conhecer...

De tudo isso, contudo, algo jamais escapou ao meu entendimento, por mais criança que o fosse: o exemplo de um amor que nunca precisou se preocupar em “dar” exemplo – estava sempre lá, simples e direto como um perfume que preenche invisível um cômodo, uma casa, nossas vidas. Verdadeiro milagre, neste mundo carente de um.




quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Num átimo

Num instante que pareceu eterno tudo se explicou: 
O vento parou, e assim também o fizeram galhos de árvore arremessados ao ar fustigante, trepadeiras descoladas que batucavam janelas, aquele saco de cimento vazio debaixo da pedra (que marcava um buraco no leito de paralelepípedos que recobria a rua), que insistia em soprar fantasmagórico, gutural, vuuuuuuuh...
O sol pareceu piscar, num átimo, por tão pouco tempo que seus olhos nem perceberam, quanto menos cogitaram procurar a nuvem que causara o fenômeno; estavam fixos no infinito ladrilho vermelho, indefectível; no máximo atraídos, vez em quando, pelo andarilhar silente das correntes de formigas, pelos cutões esvoaçantes, pelo tatu-bolinha (virando bolinha) na ponta de seus dedos. 
O calor nem se alterou pelo pequeno semieclipse - espalhava-se imóvel pelo corpinho pequeno, magrelo, sentadinho no chão do refúgio, pertinho das funcionárias e violetas, da grama que cheirava a limão. 
Parou de pensar, um instante - este instante - um único instante! o último de que poderá lembrar, até...? O último momento, será? 
- Não sei, este ainda me caberá viver.  Nunca encontrei quem o tenha descrito de viva voz, jamais encontrei uma antecipação dele em mim.
Parou de pensar por um momento, por um instante. Um segundo, ou mais. 
Uma folha caiu, seca, retorcida, despregada do cedro - que logo voltou a balançar. 
Soltou o tatuzinho, que quedou-se e lá ficou, quase na terra da descida do carro, mas ainda no ladrilho. 
Procurou alguma coisa nos bolsos (nunca soube o que era, nunca me contou) e logo levantou, amuado, pensando em pegar um livro lá dentro, pensando em como o tempo parecia se arrastar naquela sexta-feira que antecedia a esperada viagem a Caiobá...

Jamais pararia de pensar, nunca; nunca mesmo conseguiria repetir o que hoje lhe veio de graça, o segundo parado no tempo, algo pior que o silêncio, pura ausência de som.