quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Num átimo

Num instante que pareceu eterno tudo se explicou: 
O vento parou, e assim também o fizeram galhos de árvore arremessados ao ar fustigante, trepadeiras descoladas que batucavam janelas, aquele saco de cimento vazio debaixo da pedra (que marcava um buraco no leito de paralelepípedos que recobria a rua), que insistia em soprar fantasmagórico, gutural, vuuuuuuuh...
O sol pareceu piscar, num átimo, por tão pouco tempo que seus olhos nem perceberam, quanto menos cogitaram procurar a nuvem que causara o fenômeno; estavam fixos no infinito ladrilho vermelho, indefectível; no máximo atraídos, vez em quando, pelo andarilhar silente das correntes de formigas, pelos cutões esvoaçantes, pelo tatu-bolinha (virando bolinha) na ponta de seus dedos. 
O calor nem se alterou pelo pequeno semieclipse - espalhava-se imóvel pelo corpinho pequeno, magrelo, sentadinho no chão do refúgio, pertinho das funcionárias e violetas, da grama que cheirava a limão. 
Parou de pensar, um instante - este instante - um único instante! o último de que poderá lembrar, até...? O último momento, será? 
- Não sei, este ainda me caberá viver.  Nunca encontrei quem o tenha descrito de viva voz, jamais encontrei uma antecipação dele em mim.
Parou de pensar por um momento, por um instante. Um segundo, ou mais. 
Uma folha caiu, seca, retorcida, despregada do cedro - que logo voltou a balançar. 
Soltou o tatuzinho, que quedou-se e lá ficou, quase na terra da descida do carro, mas ainda no ladrilho. 
Procurou alguma coisa nos bolsos (nunca soube o que era, nunca me contou) e logo levantou, amuado, pensando em pegar um livro lá dentro, pensando em como o tempo parecia se arrastar naquela sexta-feira que antecedia a esperada viagem a Caiobá...

Jamais pararia de pensar, nunca; nunca mesmo conseguiria repetir o que hoje lhe veio de graça, o segundo parado no tempo, algo pior que o silêncio, pura ausência de som.

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