A CADEIRA NO PENHASCO toma emprestada a reentrância na rocha de um penhasco da ilha de Guernesey - local em que Victor Hugo ficou exilado e onde escreveu algumas de suas maiores obras - como uma metáfora das janelas da internet, sempre em busca de uma visão do alto. Multiply, 2004-2012. No Blogger desde 2012.
sábado, 14 de abril de 2012
Uma trilogia psiquiátrica
terça-feira, 6 de março de 2012
A Guerra dos Tronos OU O Animal Ancestral
A Guerra dos Corvos ou
O Animal Ancestral
O ser humano, já foi demonstrado cientificamente, tende a reconhecer o (já) conhecido - se você me desculpa o duplo pleonasmo; enxerga no semelhante a si a beleza, da mesma forma com que pressente o medo no que lhe eh simplesmente estranho ou diferente.
A teoria das faces prototípicas, longe de armar o preconceito, o explica: nosso cérebro armazena informações relativas à tridimensionalidade dos rostos como o faz quando associa a forma e a função de objetos, estabelecendo conexões muito mais abrangentes do que pensamos. A maioria das pessoas tende a apreciar semblantes de pessoas cujas características se aproximam da media em termos de volume e proporção: narizes nem chatos nem largos ou aduncos demais; queixos visíveis, mas não protuberantes; orelhas de elfo, se estes existissem, fariam par as de abano; lábios se possível desenhados, nem finos como os do Batman, nem grossos como os de la Jolie.
(obviamente nem sempre assim)
Somos bastante conservadores quanto a nossas preferências estéticas. Sabe por que os pentes de antigamente tinham aquela espécie de ranhura imediatamente acima dos dentes? Lembra? Estavam quase sempre lá, fosse o pente de osso, de madeira entalhada ou marfim, mesmo em alguns já feitos de plástico, bem recentes... Função? Nenhuma - a não ser nos fazer lembrar um tempo em que pentes eram feitos de verdadeiros dentes ou garras de animais, amarrados com pedrinhas, manufaturados com a paciência infinita da necessidade.
Estética, a ciência, esta cheia desses exemplos nos quais a forma sobrevive a função, subvertendo o esperado, sugerindo a verdadeira extensão do poder das imagens em nosso subconsciente. Se você acha que não, que tudo isso eh forçação de barra de filosofo maluco, preste atenção em nossos veículos mais modernos: para que servem, ainda mais estilizados, os pára-lamas que insistem em reaparecer?
A indústria e sua filha, a propaganda, sabem de tudo isto há tempos: decalcam em nossa memória eventos afetivos que consolidam marcas, produtos, serviços. Os políticos também o fazem, pelo menos quando sabem representar (bem) seu papel. Na Pintura deram até nome: Impressionismo, porque não eh exatamente a forma que "fica", eh a impressão, a memória da forma, origem de todas as madeleines.
Lembro que há duas ou três décadas o frisson era pelos ferormônios, ou feromonas, orgiásticos agentes da simpatia e da libido a desencadear antipatias gratuitas e paixões fulminantes. Somos escravos do cheiro, diria a década d'O Perfume, livro que alcançou a glória antes de ser entendido como a sátira que eh.
Hoje a onda eh abraçar "nosso lado sombrio", como quer o Chopra e sua turma em mais uma tentativa de provar que olhar para um elétron o transforma - o que deve ser verdade, pelo menos do ponto de vista comercial, vez que desde a Teoria da Relatividade uma hipótese cientifica não era alçada a condição de verdade universal Yao rapidamente como o tal Princípio da Incerteza (ou não merece as maiúsculas?)
Ou negar sua existência, coisa que fazem os adeptos do tal Segredo, que se proíbem ate pensamentos obscuros, numa lavagem cerebral auto-infligida; espiritualistas variados que partem do principio que "na natureza" não há bem ou mal; ate cristãos possuidores da única verdade que pregam que Cristo não apresentava dejetos fisiológicos, ou até mesmo comi ou dormia, sem perceber que negam a Humanidade que o define.
Por isto e mais um tanto sou cada vez mais fã do George R. R. Martin e suas Crônicas de Gelo e Fogo, onde a natureza selvagem do ser humano eh dissecada em sua essência, ao descrever um momento histórico (fantasioso, por que não?) em que as normas de conduta social ainda estavam se consolidando. Na obra de Martin, o confronto com o animal interior faz surgir das personagens, o melhor (ou não), e os faz por isto plenamente reconhecíveis, apesar de selvagens, nossos irmãos. Profundamente humanos em sua ânsia por compreender o mundo que os cerca, perigoso, indecifrável e vasto, complexo, estarrecedor... em tempos piores quae os nossos..
Quando nos enredamos em seu mar de narrativas e subitamente nao nos importamos mais com a esquisitice de um universo povoado por lobos gigantes, homens das cavernas ou filhotes de dragão pode ser que o que reconhece os não seja sob a humanidade de tribos e crenças ancestrais, fundamentadas em outros paradigmas, mas a própria estranheza de nossa gente e nosso mundo.
Reconhecer mais facilmente o que apreciamos pode ser um aspecto essencial da natureza humana, mas não significa que não conseguimos enxergar o diferente. De maneira análoga a criança rejeita alimentos muito coloridos , ácidos ou pungentes: faz parte de seus mecanismos de defesa contra intoxicações e venenos.
Com o tempo e a maturidade, podemos chegar a desejar estas experiências, por darem tempero a vida. Do que seriamos capazes se finalmente entendêssemos mais sobre a nossa própria natureza? Despidos de nossos vieses culturais, talvez ate dos filogenéticos, seriamos melhores ou piores? Bons? Ou maus?
quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012
The King Is Dead
| Rating: | ★★★★★ |
| Category: | Music |
| Genre: | Folk |
| Artist: | The Decemberists |
Difícil fazer comparações, mas o disco é tão coeso e eficiente, cru porque folk-country, elaborado como rock, que só consigo me lembrar de "Comes A Time", do próprio Neil Young (1976) e "The Fishermen's Blues", dos Waterboys (1987).
É tão bom quanto. E deve fazer pelo folk americano o mesmo bem que esses dois outros álbuns fizeram à música pop em seu tempo.
Minha favorita? "Don't Carry It On". --> http://youtu.be/2GrxnOX0Eww
Leia mais sobre a banda em:
http://en.wikipedia.org/wiki/The_King_Is_Dead_(album)
http://en.wikipedia.org/wiki/The_Decemberists_(band)
Wishing well
E se não foi por discordar, completa ou parcialmente, da opinião de alguém sobre a vida em geral; ou porque sentimentos outrora trópicos se tornaram antagônicos - por que se separar?
E se não for para nos dedicarmos de corpo e alma à aventura de viver juntos, por que permanecer? Se não for para aprendermos, com dedicação, a bem conviver, por que tentar?
Viver pela metade, ou em demasia, dores e amores, para quê?
E como acertar a dose, a pessoa, o timing, o ego, os instintos, tudo que vai transverso ao ser sem se ferir e automutilar; ou coisa pior: fazê-lo a outrem? Como acertar nossa pendências com traumas, passados, heranças, genéticas, histórias de sobrevivência e riso e cor? Como lidar com discrepâncias, antíteses, valores, credos, sexualidades, preceitos morais e dissipações tão idiossincráticas como as que todos carregamos?
Como julgar pelos olhos, pelos sorrisos ou choros, pela entrega ou pelos egoísmos salientes sem ser injusto, eu que só por ser eu já sou injusto com qualquer um que não o espelho? Como confiar (ou não), entregar-se (ou não), debater (se), ou não, se a cada dia somos mais numerosos e menos comuns, menos comunitários, familiares, e agregados que nunca na história humana?
Como ser ético, honesto, fiel (ao que quer que lhe seja importante) em um mundo cada vez mais hedonista, egoísta e competitivo? Como ser “popular” (com biquinho de High School americana) sem ser canalha, babaca e auto-indulgente ao extremo? Como ser “loser” sem morrer de fome, se não for a tua encarar esta imensa ilusão que nos venderam que se chama “ganhar a vida”?
Como ser feliz se não o sabemos, se não ensaiamos, não temos roteiro e no fundo, no fundo, quase ninguém assiste com real interesse? Como ser feliz se não temos mapas, carros e companhia disposta, na maior parte do tempo, na maioria das rotas?
Como saber se não ansiamos por uma “Dizz Knee Land” paraguaia se nunca vimos o Mickey?
E se aqui formos inteiros no que vivemos, assumindo nossos anseios na esperança de saciá-los, e nossas falhas com a plena intenção de melhorarmo-nos, talvez consigamos conviver com as imensas cargas que nos pesam e preencher as lacunas de compreensão que nos assolam - frutos tortos da memória, ela própria tão auto-indulgente quanto traiçoeira.Porque vivemos ar e água e movimento, palavras que saem, gestos, sons aleatórios (cacofonia do mundo) e nao-verbais, taquicardias e ereções. Mas o que recordamos são flechas envenenadas de química, os tais sentimentos que ninguém ainda definiu bem
Mais tortos que os "brancos" e lapsos, mais traiçoeiros que as recordações, os sentimentos não existem pelo que são, somente, mas pela impressão que nos causam. O que deles fica é carimbo, marca, gravação. De natureza ligeira e vida curta, quando despidos do instante, já não são. Por isto pouco devemos confiar-lhes, por mais que arda, ainda, lá dentro, e sempre, sua fogueira invencível.