E se não foi por discordar, completa ou parcialmente, da opinião de alguém sobre a vida em geral; ou porque sentimentos outrora trópicos se tornaram antagônicos - por que se separar?
E se não for para nos dedicarmos de corpo e alma à aventura de viver juntos, por que permanecer? Se não for para aprendermos, com dedicação, a bem conviver, por que tentar?
Viver pela metade, ou em demasia, dores e amores, para quê?
E como acertar a dose, a pessoa, o timing, o ego, os instintos, tudo que vai transverso ao ser sem se ferir e automutilar; ou coisa pior: fazê-lo a outrem? Como acertar nossa pendências com traumas, passados, heranças, genéticas, histórias de sobrevivência e riso e cor? Como lidar com discrepâncias, antíteses, valores, credos, sexualidades, preceitos morais e dissipações tão idiossincráticas como as que todos carregamos?
Como julgar pelos olhos, pelos sorrisos ou choros, pela entrega ou pelos egoísmos salientes sem ser injusto, eu que só por ser eu já sou injusto com qualquer um que não o espelho? Como confiar (ou não), entregar-se (ou não), debater (se), ou não, se a cada dia somos mais numerosos e menos comuns, menos comunitários, familiares, e agregados que nunca na história humana?
Como ser ético, honesto, fiel (ao que quer que lhe seja importante) em um mundo cada vez mais hedonista, egoísta e competitivo? Como ser “popular” (com biquinho de High School americana) sem ser canalha, babaca e auto-indulgente ao extremo? Como ser “loser” sem morrer de fome, se não for a tua encarar esta imensa ilusão que nos venderam que se chama “ganhar a vida”?
Como ser feliz se não o sabemos, se não ensaiamos, não temos roteiro e no fundo, no fundo, quase ninguém assiste com real interesse? Como ser feliz se não temos mapas, carros e companhia disposta, na maior parte do tempo, na maioria das rotas?
Como saber se não ansiamos por uma “Dizz Knee Land” paraguaia se nunca vimos o Mickey?
E se aqui formos inteiros no que vivemos, assumindo nossos anseios na esperança de saciá-los, e nossas falhas com a plena intenção de melhorarmo-nos, talvez consigamos conviver com as imensas cargas que nos pesam e preencher as lacunas de compreensão que nos assolam - frutos tortos da memória, ela própria tão auto-indulgente quanto traiçoeira.Porque vivemos ar e água e movimento, palavras que saem, gestos, sons aleatórios (cacofonia do mundo) e nao-verbais, taquicardias e ereções. Mas o que recordamos são flechas envenenadas de química, os tais sentimentos que ninguém ainda definiu bem
Mais tortos que os "brancos" e lapsos, mais traiçoeiros que as recordações, os sentimentos não existem pelo que são, somente, mas pela impressão que nos causam. O que deles fica é carimbo, marca, gravação. De natureza ligeira e vida curta, quando despidos do instante, já não são. Por isto pouco devemos confiar-lhes, por mais que arda, ainda, lá dentro, e sempre, sua fogueira invencível.
Nenhum comentário:
Postar um comentário