quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Zumbi dos Palmares e o Feriado de Vinte de Novembro

O Dia da Consciência Negra no Paraná não é feriado. E os paranaenses ainda criticam ser feriado em outros locais - leia-se na maior parte do país. 

É que não temos negros por aqui. Só italianos, alemães, poloneses, ucranianos, holandeses, japoneses...Não é? 

Não. Nao é. Não mesmo. Primeiro que raça é só uma, a humana. Cor da pele pode no máximo indicar a etnia. Com a miscigenação, nem isso. 

Eu mesmo, branco como quê, alemão e holandês, perco minha árvore genealógica umas quatro ou cinco gerações atrás, com histórias de índios, portugueses e mulatos já se intrometendo no tal sangue europeu. 

Estudos genéticos já provaram que somos todos praticamente iguais, chimpanzés e bonobos inclusos, já arrombando a porta do gênero Homo. 

Por quê, então, um dia para ressaltar as diferenças? 

Porque ainda não somos, como cidadãos, completamente iguais. É a base da luta pelo direito das "minorias", que no caso dos negros, nem minoria é. 

No dia em que crianças, idosos, desabilitados, mulheres, homossexuais e negros tiverem os mesmos direitos na sociedade, esses dias de reflexão serão obsoletos. 

Por ora, viva Zumbi dos Palmares!

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Quadrinha

O Collor(ido) caçou marajás
Sob apupos gerais 
Mas lá da Dinda foi tocado 
Pelos anões do Orçamento. 

Veio Itamar
Ih-ta-marrr!
Deixou o fusca 
E  uma foto de buça pro ar, 
Não dele, dela, a semifafá!
'Cabou enquadrado por uma 
PM mineira
De lá para os lados de Quixadá. 

FHC prometeu cinco dedos, a saber: Emprego
Educação
Saúde
Segurança
Agricultura 
Pôs a mão no bolso e não sacou
Escondeu os dedos
Ninguém mais lembrou

Lulla veio só com nove 
Cinco numa, 
Quatro n'outra
Nada prometeu
E nada fez 
Pelo país 
Que surfar a onda
E despejar
Dilmata 
Na casamata da baderna.

E a Dilminha, tadinha!
Esquindô-lê-lê
Nada sabe 
nada viu,
Ô-Lulla-lá!
Continua a mandar no país 
Por aclamacao popular!

(Em ritmo mezzo samba, mezzo marchinha)





Precisamos de um transplante de povo

Abomino a política em geral como abomino a chamada vida social, do jeito que é praticada por aqui. 

Aqui no Paraná reina a arrogância e a pretensão, sem falar nas maracutaias. Nossa organização social e política é sui generis: mezzo feudal, mezzo ultracapitalista - mas só pro que interessa. Os feudos e capitanias hereditárias imperam na Política, na Medicina, no Direito, no Comércio... Há "donos" do pedaço em todas as instâncias, mafiosos que decidem quem entra na UNIBLERGH, quem pode fixar residência e exercer a profissão por aqui (ou não)... "A cidade é minha e eu expulso daqui quem eu quiser", "você sabe com quem está falando?" et coetera.

"De que família você é?" é pergunta obrigatória, como se tivéssemos de apresentar pedigree para ser gente. 

Gente que nunca trabalhou de verdade representa a cidade ad æternum nas urnas; gente que nunca se elegeu sai no topo do legislativo no primeiro dia de mandato; político recém eleito pela primeira vez diz que seu objetivo é o Senado (!). A Câmara de Vereadores é pouco: vamos direto para deputado estadual, federal... Pra que se preocupar com o bairro, com a cidade, com o aprendizado político? 

"Filhos de" abundam. "Vote no babaca para federal e no babaca baby para estadual", ou seja, ajude a família babaca a nos foder mais um pouco. É o que me dizem os galhardetes de pais e filhos candidatos, onipresentes no estado. Que um pai queira estender seu poder eu até entendo. Que alguém vote no "filho de" só porque é filho de, não entendo. 

Pelas vias legais, nada funciona. Só no jeitinho, no conchavo. O "Sul Maravilha" morreu, inchado de calor com seu clima desértico, obra do desmatamento desenfreado e ganancioso que nos legou apenas 1% da cobertura vegetal original. A educação é péssima, os serviços, ruins, a saúde pública é ridícula e a rede privada, mambembe de tanta ganância. Nas universidades, há feudos e "donos", também. Só faltam as milícias. 

Políticas acertadas do governo federal não são implantadas porque o estado e o município são de outro partido. Não há política de saúde pública para as crianças ou um único serviço privado pediátrico de verdade na cidade. Hospitais gananciosos são mais sujos que pau de galinheiro. 

Os governos de modo geral são balcão de negócios, com a sociedade, corrupta igual, se cliente. A imprensa é pelega ou vendida, os jornais, fraquíssimos; a oposição é nula ou suja.  As igrejas transformam as pessoas em donos absolutos da razão, e se alguém se autointitular "muito religioso", pode ter certeza de que não vale nada, é perigoso. Caridade se faz com assinatura, para aparecer no jornal, nunca pelo bem comum.

As pessoas são INCONTRARIÁVEIS, para angariar inimigos basta pensar diferente. 

Dizem que o Brasil inteiro anda assim. Parece que sim, a se ver pelo resultado das eleições. O Estadão de hoje analisa: fomos às ruas em 2013 para deixar tudo como estava, depois, nas urnas. 

É de chorar. Olho pros lados e não tenho nenhuma esperança. 

E ainda falam do Nordeste, como se nós do Sul e Sudeste  fôssemos farinha de outro saco, quando não é verdade. O Sul Maravilha morreu: só falta colocar o algodão no nariz. É o resto está tudo igual, com a profusão de indiciados eleita no Norte, o Pezão (quem?) no Rio, os mesmos coronéis de norte a sul. 

Sinto-me um idiota, por trabalhar a vida inteira honestamente. Bons mesmos são os que se dedicam a enriquecer por qualquer meio: serão homenageados, eleitos, terão suas mãos beijadas pelos puxa-saco e obterão o respeito popular. O Brasil é o país do "é minha vez!" (de roubar), por isto eleições são inúteis. Só fazendo um transplante de POVO. 

domingo, 19 de outubro de 2014

Lição Maquiavélica

"Um principado estabelecem-no o povo ou os grandes, conforme a ocasião que uma destas partes tiver; notando os grandes que não podem resistir ao povo, iniciam a criar a reputação de um de seus elementos e o tornam príncipe, para poder à sua sombra, satisfazer os seus apetites. O povo, do mesmo modo, vendo que não resistirá aos grandes, dá reputação a um cidadão e o elege príncipe para defender-se sob sua autoridade. O que sobe ao principado auxiliado pelos grandes, mantém-se com maiores dificuldades do que o que se elege pelo povo; acha-se aquele que tem muita gente ao redor que lhe parece igual a ele e por isso não pode comandá-la nem manejar como quiser. Contudo aquele que alcança o principado pelo favor do povo, acha-se só e ao seu redor, ou não tem ninguém ou alguns poucos que não estão aptos a obedecê-lo. Além do mais, não se conseguem honestamente contentar os grandes sem ofender os outros, porém o povo pode ser satisfeito. Porque o desideratum do povo é mais honesto do que o dos grandes; estes desejam oprimir e aquele não quer ser oprimido. Contra a hostilidade popular, não pode o príncipe jamais estar seguro, pois são muitos; com relação aos grandes, pode, porque são poucos. O pior que um príncipe pode esperar do povo hostil é que ele o abandone. Da inimizade dos grandes, porém, não só deve temer que o abandonem, mas que também o ataquem, pois estes têm maior alcance de vistas é astúcia maior, e sempre têm tempo de se salvar, procurando achegar-se dos prováveis vitoriosos. Necessita ainda o povo viver sempre com o povo, mas pode perfeitamente prescindir dos grandes, porque pode fazer e desfazer, cada dia e aumentar-lhes perder influência, a seu capricho." 
(O Príncipe, 1513)

Nicolau Maquiavel
Niccolò di Bernardo dei Machiavelli

domingo, 17 de agosto de 2014

Muitas Margens, de Miguel Sanches Neto (Arte& Letra Editora, Curitiba, 2014)

Falar do novo projeto literário de um amigo pode ser temerário: há sempre o viés da amizade a obscurecer críticas e elogios. Não vem ao caso, a este caso, contudo, pois não há como NÃO falar do livro de um amigo - quanto mais se este amigo é o multitalentoso professor Miguel Sanches Neto, que tão brilhantemente se entregou a este belo projeto, quase impressionista, de passar “Sete Dias Na Rodovia” (como entrega o subtítulo do livro).

Algumas explicações se fazem necessárias: a rodovia em questão é BR 376, que Miguel percorreu em uma van, partindo de Apucarana, indo até Curitiba pelos Campos Gerais do Paraná. Foi por ela, trinta anos atrás, que o autor deixou sua cidade natal e ganhou o mundo. Agora, vagamente inspirado na viagem que Julio Cortázar e Carol Dunlop fizeram na França, em 1982, Miguel fez o percurso lentamente, chamando-o de “Residência Literária na Rodovia”.

Ainda que um pouco incomodado com o fator “espetáculo” que rondou a expedição – como deixou claro, tanto no livro como nas palavras que proferiu no lançamento da obra – Miguel soube equacionar bem o interesse despertado pelo caráter inusitado do projeto (que reuniu equipes de filmagem e fotografia durante todo o percurso), com a intenção bem diversa de viver a estrada em sua plenitude, com calma e sem pressa, colhendo aqui e ali inspiração para um livro que, obviamente, mesmo o autor não sabia de antemão como haveria de ser.

Reunindo haicais escritos in loco, alguns poucos contos e, no mais, uma prosa tranquila, coloquial e bem posta; Muitas Margens surpreende por não se enquadrar em modelos já estabelecidos. Com certeza não se trata de um “livro de viagem”, uma memória ou um relato jornalístico. Da forma como ficou, em seu aspecto final, entretanto, o tomo não deixa de dialogar com obras e autores que também se interessaram, e imprimiram seus nomes entre aqueles que fizeram do assunto "viagem" tema relevante da literatura, como o próprio Cortázar, Goethe, Woolf e outros.

Dos últimos extraio duas citações que cabem como uma luva para repensarmos os temas, tão amplos, que Miguel inclui em sua obra. 

Goethe disse uma vez: “Não viajamos apenas para chegar, mas para existir enquanto viajamos”. É o que o autor obtém, contando-nos muito mais de seus pensamentos e sentimentos que da estrada propriamente dita.

Já Virginia Woolf certa vez sugeriu: "Que cada homem, ouvi dizer outro dia, ponha-se a anotar os detalhes de uma jornada de trabalho; a posteridade há de ficar tão contente com o catálogo quanto ficaríamos nós, se tivéssemos um tal registro de como o porteiro do Globe e o homem responsável pelos portões do Park passaram o sábado, 18 de março, do ano da graça de 1568." Isto também Miguel logra obter: vasto retrato humano, fruto de sua entrega ao projeto e do olhar compassivo e amoroso que devota a seus personagens, característica (a meu ver) marcante de sua literatura. Daqui a quinhentos anos, quando nossos tatatatara...netos quiserem saber como vivíamos aqui no sertão, é o livro de Miguel que procurarão, cientes de que possuem um tesouro.

Em dezembro de 1986, saí de Ponta Grossa pela mesma estrada, rumo à faculdade de Medicina em Curitiba. Foram mais de seis anos de idas e vindas, suficientes para conhecer de cor as curvas e rios deste trecho da mesma estrada. Nela, vivi bons e maus momentos, que reli sob a luz da sua experiência, amigo Miguel, e acho que saio da leitura um pouco mais próximo de minha própria terra, e, de quebra, conhecendo melhor o amigo.

Duro foi encontrar, já próximo ao final, menção ao meu grande amigo de infância e adolescência, morto no longínquo ano de 1998, cuja cruz você visitou no caminho. Naquele momento as lágrimas vieram, incontroláveis, e só pararam quando fechei a leitura, encantado e agradecido.











sexta-feira, 8 de agosto de 2014

A PRIMEIRA HISTÓRIA DO MUNDO

Comprei “A Primeira História Do Mundo” ali no Paço Imperial, naquela livraria à moda antiga – no bom sentido – que atende pelo nome de “Arlequim”.

Fiquei pouco lá, menos do que gostaria, tendo em vista a riqueza do acervo e o ambiente tranquilo, propício a leituras e devaneios. Mulher, filho e sogra num fim de tarde memorável, sabe como é: passeio pelo Centro antigo, exposição no MAR, outra no CCBB, almoço no Arco do Telles, última parada no Paço -  para o Thomas aprender um pouco mais sobre a cidade de reis e imperadores.

Quando vi seu livro, prezado Alberto Mussa, já o sabia; O Globo publicara, uns dias antes, a resenha. Não me assustei com seu aviso na contracapa (“Quero, assim, prevenir o comprador indeciso, que folheia um exemplar, mas ainda não pagou o preço”), pois o tema me interessava: um relato do primeiro assassinato ocorrido no Rio de Janeiro, então uma vilazinha com cerca de quatrocentos habitantes.

Voltamos para casa, exaustos, ainda que o calorzinho de julho seja brando na capital; loucos por um banho, comer e dormir. É o que fazem todos, mulher, filho e sogra, menos eu. A tevê grita, as buzinas no viaduto ali ao lado já passam da hora habitual, o menino assiste, atento, a um vídeo atrás do outro no YouTube, ele e a mãe já dormem. Menos eu.

Transportado momentaneamente para outro mundo, acompanho ansioso o desenrolar de fatos tão antigos, tão distantes, que acho que nem estou mais por aqui: o pensamento viaja, célere, pelas costas da baía, pelas águas do Rio Carioca, pelas ruazinhas estreitas do povoado encolhido sobre o Morro do Castelo, pela busca insana (que só consigo imaginar!) do autor por suspeitos, inocentes, culpados.

Organizado em meros cinco capítulos, o livro de Mussa entrega tudo que promete, e mais. À moda dos romances policiais, somos apresentados ao contexto do crime, acompanhamos a investigação levada ao cabo, à época, compartilhamos das suspeitas do autor sobre a virtude da esposa da vítima, e por fim somos apresentados aos suspeitos, enfileirados no terceiro capítulo que ocupa quase todo o tomo.

É quando a obra nos pega, de jeito e de vez. Em suas páginas desfilam heróis e anti-heróis, prostitutas e madamas, índios, negros, capitães-do-mato, degredados e ilustres desconhecidos, descritos à perfeição, de modo a nos brindar com um painel tão vivo e verossímil que nos esquecemos, boa parte do tempo, de onde surgiram: da leitura e do estudo, obviamente lento e difícil, de documentos públicos de quase quinhentos anos atrás.

Do quarto e do quinto capítulo, porém, nada posso adiantar, sob pena de estragar as surpresas, todas fantásticas, que o autor nos reserva ao final. Apesar de imbuído de um desejo irrefreável (e aparente) de concluir sua história, Mussa se contém, dá tempo ao tempo, e constrói suas conclusões com estilo e elegância, dando à história uma profundidade humana, e até mesmo literária, inaudita. Sua solução dantesca, apesar de arriscada, dá certo, e saímos da história certos de que a tal pesquisa dos fatos de nada valeria sem o amálgama do escritor talentoso, que transforma água em vinho.

À parte o fascínio do enredo, contudo, ganha relevo o pano de fundo histórico, a compreensão e a empatia necessários para tornar vivas essas personagens que tinham tudo para permanecerem desconhecidas de nós. Especialmente os índios: é deles a cultura, os costumes e o misticismo que permeia tudo nesta “Primeira História”. É a visão deles que alinhava os mais belos painéis daquele Rio de Janeiro de antanho, tem a ver com eles, os índios, até mesmo o final. E olha que eu não estou contando nada, viu?

Harold Nicolson (1886-1986), mestre resenhista inglês*, dizia, ao defender sua tarefa: “Dirijo-me aos autores dos livros que resenho; quero dizer-lhes por que gosto ou não gosto de seu trabalho; e acredito que de tal diálogo o leitor comum há de extrair alguma informação.” Aqui neste espaço, leigo e diletante, não temos tamanha pretensão. Fica esta quase carta ao autor. E uma vontade imensa de ver seu livro em cada casa, em cada sala de aula, para que conheçamos todos, divertindo-nos à vera, um pouco mais sobre este nosso louco, jovem e desconhecido país.



* Citado por Virginia Woolf em seu ensaio “Resenhando” (1939).

sábado, 12 de julho de 2014

Aos 45

Curioso: os quarenta não me assustaram tanto quanto cada ano depois dele. Junto com os quarenta e cinco, completados ontem, vieram reflexões que me colocam, talvez, na tal crise da meia-idade. 

Bobagem nossa acreditar em abstrações e aniversários. Estas coisas, porém, infiltram-se de maneira solene e indelével em nossas almas como outrora as estações do ano, hoje misturadas pelo caos meteorológico. Faz parte da gente refletir sobre passado, presente e futuro no transcorrer das efemérides. 

Comparamos os sonhos que tivemos com o que efetivamente conquistamos, e nem sempre a conta fecha. 

Sou feliz, hoje, por dois únicos motivos: a pequena família que montei, eu, mulher e filho vivendo uma vidinha simples, sem grandes sobressaltos, imperfeita mas verdadeira; e os verdadeiros amigos, poucos, suficientes, bacanas de conviver. A distância de meus filhos mais velhos acalento com amor e dor. 

O resto é pó, espalhado pelos ventos da vida até sobrar quase nada. 

Parente é serpente, como dizem os italianos, ainda que toda generalização seja burra. E somos todos bem vistos, na família ampliada, quando úteis, quando nada incômodos, quando sempre bem dispostos a ajudar quem precisa - por mais que nossos problemas devam ser resolvidos à larga, de maneira discreta, pois não interessam a ninguém. E desde que não mudemos, permaneçamos fiéis à imagem ancestral que imprimimos nos nossos. Há exceções? Claro. 

Trabalho honesto não leva a nada, só à mera sobrevivência; pois bons mesmo neste país (em todos?) são os desonestos, os aproveitadores, os inocentes-úteis, os puxa-sacos, os filhos de, os filhos da, os "bem-relacionados", os mais competitivos. Continuamos porque não sabemos fazer diferente, alguns de nós, e estes apanharão sempre dos safados e hipócritas.

Carreira, pelo menos em PG, Paraná, esbarra nas impossibilidades políticas, no desinteresse da comunidade pelo destino de nossas crianças, pela falta de profissionalismo nos hospitais, pelo modelo feudal que predomina na Medicina, especialmente no interior. 

Nesta - a Medicina - passamos de anjos a algozes, após décadas de lavagem cerebral político-midiática. O povo nos odeia - com razão, pelo que fazem os maus colegas; sem razão, dado que o SUS sobrevive às nossas costas, através do trabalho hercúleo dos bons profissionais de saúde em hospitais mal-ajambrados, funcionando à beira da penúria e do abandono. O povo espera milagres, 100% de cura e sucesso numa profissão em que o espectro da morte nos acompanha todos os dias, inevitável. 

Na universidade, por sua vez, temos de um lado a mesquinharia política transformando a (quase) todos em corvos a disputar verbas, promoções, cargos comissionados, enfim, nesgas de um poder inútil - exceto aos egos. Do outro, verdadeiros mestres nem sempre apreciados ou tratados de maneira justa. Inteligência e autodeterminação incomodam, na Academia, onde vale mais quem mais anódino for. 

A política, então, nem se fala: há sempre novas quadrilhas, referendadas pelo voto, dispostas a nos roubar mais um pouco (pouco?). E os poucos vem intencionados são logo comprados, cooptados ou calados; tornados cúmplices ou coniventes por um modelo democrático (?) ou falido. Governos são balcão de negócio porque nossa sociedade é cliente. 

Minha avó Keka, sempre à frente de seu tempo, comentava sobre meus textos antes de falecer, que temia por mim. Ela própria só chegará a ter uma visão tão dura da vida quando idosa, dizia, não tão cedo. 

Mas será cedo? Ou, na verdade, tarde demais para mudar? 

Não tenho dúvidas acerca da realidade que enxergo ao meu redor. Se o homem é feito à imagem e semelhança de um Deus pessoal e compassivo, será que Ele nos abandonou? Ou deu espaço demais para a concupiscência no projeto e esta logo tomou conta? Seríamos apenas animais inteligentes, como a Ciência nos diz, logo, atados a instintos primitivos de auto-preservação? Sem alma, sem compaixão ou entusiasmo?

Não crescemos nada, filosofia e eticamente falando, ao logo das eras? 

Quando meu olhar recai sobre as notícias da roubalheira na construção de obras para a Copa, quando sabemos que ainda hoje há mais de duzentas mil crianças-soldado nas guerras do mundo, quando acordo no dia de meu aniversário e vejo as fileiras de crianças palestinas assassinadas por judeus (o último povo que poderia fazer isto, depois de tudo que sofreu), minha resposta é NÃO. Não evoluímos nadica de nada. 

Grandes desafios então se impõem.  Fazer a Humanidade sobrepujar o monstro que existe de tel de cada um. Chegar ao fim de todos os dias em paz comigo mesmo e com os meus. Achar forças para acreditar. Passar aos filhos alguma esperança, alguma fé, nem que seja neles mesmos. Nunca desistir daquela mulher maravilhosa que, em meio a este mundo lazarento, tem sido sempre toda energia e todo amparo, réstia imensa de luz e calor. Tentar entender nossos pais, apesar de indecifráveis como todo ser humano.  Procurar nos outros algo de bom. E acolher a todos que nos procuram com a delicadeza possível, que abre portas e nos protege. 

É o que sei. O pouco que aprendi em quarenta e cinco anos muito loucos, bem vividos apesar das circunstâncias; a única vida que experimentei. 

quinta-feira, 3 de julho de 2014

Diário da Copa Especial ou "Chupa, Dunga!"

Ainda bem que alguém perguntou. 


Não que o Dunga tenha dito alguma novidade. Na época ele ou alguém do seu staff, sem contar parte da imprensa, falavam a mesma coisa. 


Que não importa, em absoluto. À falta de um pensamento de longo prazo, craques como Neymar e Ganso têm destino errático, dependendo apenas de si e de suas próprias decisões para seguir carreira. 


Alguns fora de série, como Neymar, se dão bem de cara, mas esses são os geniais. 


Outros como Ganso, Robinho, Diego, Kakáe o próprio Ronaldinho Gaúcho - para citar poucos e recentes - foram percebidos como novos pelés, mas sempre renderam menos que o que se esperava deles. Por mais sucesso que tenham obtido. 


O que Felipão fez com o goleiro JC é prática comum no vôlei, onde atletas de ponta são acolhidos na seleção pela confiança em seus resultados, meio que apesar de altos e baixos nos times. 


Deveria ser feito com todas as grandes promessas. 


Pelé foi aos 17, Ronaldo aos 18. 


Logo, 'chupa, Dunga'! - Neymar Jr. e Ganso não foram para a Copa de 2010 por culpa sua. Teria sido excelente para os dois, ainda que sem jogar, como Ronaldo em 94. 


http://sportv.globo.com/site/programas/madruga-sportv/noticia/2014/07/dunga-cita-1966-e-explica-por-que-nao-convocou-neymar-em-2010.html?utm_source=Facebook&utm_medium=Social&utm_campaign=globoesportecom

quarta-feira, 18 de junho de 2014

DC 7

Enquanto o mundo se despede da Espanha, eu guardo meu ingresso até segunda-feira, quando os encontrarei, tete-a-tete. 

Vou torcer pela Austrália, claro, em honra aos amigos que fiz lá. 

Mas, lá no fundo, o menino que (sobre)vive em mim, que sonhava desde sempre ir à Copa, aguarda ansioso um despertar globetrótico da alma espanhola, uma despedida honrosa, pelo menos para valer o ingresso. 

Brio, hombres, façam jus ãs palavras de  Del Bosque em sua defesa. Todos nós, e vocês mais que todos, nós devem está. 




terça-feira, 17 de junho de 2014

DC V

Segunda-feira não é dia de Copa, né? Nem de escrever, pelo visto, que  começo esta história quando a noite já avança sobre a quarta. 

Tudo bem: em um diário real, acontecem atrasos também. Importante é colocar os pingos nos is do dia certo (ou errado).

Ontem foi este dia, errado, torto, gauche. 

Começou bem, com afazeres no centro em muito facilitados pelos amigos, almoçando McD ao chegar no hospital. 

Terminou bem, também, que em casa, estamos todos bem, graças a Deus, amém. 

No meio, sempre arrancando partes da gente, a vida. Amigos que surpreendem, amigos que se revelam, confusões entre amigos e outros nem tanto; mediações inescusáveis que custam caro, acontecimentos cotidianos que nos roubam a alma. 

Por todo lado, olhares vidrados na tevê tentam apreender mais uma goleada impensável, a da Alemanha soberana sobre um Portugal irreconhecível. CR7 rezou missa de corpo presente, nem sei se acredito que o gajo jogou. 

Vejo um pouco, ouço o jogo ao longe enquanto trabalho, corro de carro pra lá e pra cá,e  termino o dia apático depois de uma reunião estafante, que não enxerguei vindo. Pouca Copa hoje (ontem).

Ah! O Scumacher acordou!




sábado, 14 de junho de 2014

Diário da Copa III

Bem, hoje a Copa entrou naquele ritmo de corrida maluca, em que já voltamos aos afazeres e até perdemos alguns jogos bons. Almoço, Festa Junina, preguiça na noite. 

Vi um pouco de Itália e Inglaterra, pouco mais de um tempo, e gostei do que vi de ambos os lados. Jogo de raça, com clima de Copa. Vi a Colômbia, perdi o Uruguay, e do Japão nem quis saber, subitamente cansado. 

De resto ficou um gostinho meio amargo em alguns - achar ter visto o melhor na goleada neerlandesa de ontem. 

Duvide-o-dó! 

Ainda estamos no esquenta! 

Que venham a Argentina, que venha Portugal.   Vou assistir nem que seja o replay, de madrugada. 

Xi! 'Tô atrasado de novo! Bom domingo! 

Shampoo

 Cauterização pós-química. 
Reconstrução completa.  
Antifrizz congelante.
 
Reconstrução de ponta dupla.
Efeito cauterizador.  
Reconstrução estrutural progressiva. 

Dois-em-um ressuscitador. 
SOS crescimento fortificado. 
Queratinização profunda. 

Realinhador de cutícula. 

Desamarelador sublime. 
Iluminador sem sal, sem sulfato, sem corantes, sem parabenos. 

* * *

A paranóia feminina com os cabelos é infinita - "toda mulher é meio Leila Diniz". E logo, já, a dos homens também será, vide o apelo "spornsexual" da Copa no Brasil. 

Mas como acreditar nos anúncios de um mercado mal regulado, de nomenclatura e classificação desconhecidos; que promete, sem delongas, verdadeira ressuscitação capilar através de "n" métodos diferentes? Como escolher o que por - ou tirar - em seu cabelo? Mais água? Menos sal? Ceramidas ou babosa? 

Efeitos da epidemia de alisamentos ou sinal de tempos cada vez mais hedonistas, onde imagem pode ser tudo?

Não sei dizer. Juntos, os slogans são quase um poema. De ciência alguma? 

sexta-feira, 13 de junho de 2014

Diário da Copa II

Não concordo com quem diz que time, só um. 

Calma, calma, deixe-me contextualizar: quem vos fala é um CORINTIANO roxo! Não, nunca, um vira-casacas! De jeito nenhum!

Mas a simpatia é inevitável, e se estende a alguns - e sim, apenas alguns; e sim, apenas simpatia - outros times. 

Como não simpatizar com o Santos e seus meninos sempre renovados? Com o Mengão e sua torcida tão parecida com a do Timão, feira de pobres e pretos em sua maioria, capazes como ninguém de incendiar um estádio? Com o combalido Operário Ferroviário, time de minha terra, dono da torcida mais devota e apaixonada do Paraná? 

Digo mais: as antipatias também existem. Como gostar do Palmeiras, em qualquer situação? Há times que não engulo, acho que isso acontece com todo mundo, time eu dá raiva! Ou não? 

E na Copa é igual, resultado não só de rivalidades históricas, mas de antipatias naturais quase inexplicáveis. Como explicar nossa implicância com "los hermanos argentinos"? Deveríamos implicar muito mais com os uruguaios -estes sim nos trolharam feio uma vez. E no campo. Os argentinos precisaram comprar os peruanos para nos arrancar um Mundial...

Tudo isto para dizer que meu lado van Wilpe exulta com a chinelada dada pelos holandeses no escrete "furioso". Robben, van Persie & cia tiveram uma das mais belas atuações da história das Copas nesta tarde em Natal. É meu "time B" mandando ver. 

Diário da Copa I

Ao contrário de alguns que se isolam neste período de Copa do Mundo de Futebol, dizendo não gostar de futebol, travo com o venerando esporte bretão relação de longa data; logo, eis-me aqui. 

Por razões óbvias, este é um diário que já inicia de modo incorreto, falando da véspera, quando, literalmente molhados, nós brasileiros comemoramos um 3x1 meio suado demais, escorregadio demais, esquisito demais. 

De bom, as maduras e nada surpreendentes atuações dos craques Oscar e Neymar. E sim, amigo Jean (corneteada nº 1), acho que você estava molhado também por não perceber a grande atuação do meia Oscar. Já Neymar Jr. é raro, raríssimo, fora-de-série. 

É tudo que me lembro. Terça-feira tem mais e vamo que vamo que o time é bom e a Copa (dizem) já foi vendida para o país-sede. 

sábado, 10 de maio de 2014

Seleção

SELEÇÃO 

Um ataque com Hulk, Fred e Neymar é mais forte que um com Bernard, F. e N. O que não exclui o menino Bernard, que pode entrar no segundo tempo, no lugar (natural) de Hulk este misto de ponta-de-lança e líbero ao contrário que ele faz tão bem. Ou no de Fred, empurrando Neymar mais avante. 

No varejo, Scolari aposta no óbvio: jogadores que venceram em seus times, venceram na Europa, têm lastro de vida e tempo de futebol. Dezenove "estrangeiros" de alguns dos melhores times de lá, importantes em seus clubes. Quatro conterrâneos, dois do Atlético-MG, um do Botafogo-RJ, um do Fluminense-RJ. 

Como diz o Neto: incrível não haver nenhum convocado atuando em São Paulo! 

Mais incrível ainda, ausências notáveis: Robinho, Ronaldinho e Kaká; Luis Fabiano e PH Ganso. Todos craques, à parte patinarem para realmente fazer diferença em seus times por aqui, até nos estaduais. 

Acho que o Ganso poderia ir. Até deveria, porque é o mais novo dos citados, e possui especial talento, prestes a ser desperdiçado por aqui. Quem sabe a reserva, entrando aqui e ali num segundo tempo, compondo com Oscar, deixando somente dois ali no ataque (Neymar e Hulk, Neymar e Fred), com Paulinho e Luis Gustavo em todas as versões, não se resgatava a carreira deste guri?
Lembrem da importância que teve a Copa de 94 para Ronaldo, a de 58 para Pelé! A CBF deveria cultivar melhoro craques em potencial, como PH, penso eu, caso contrário acabarão como os quatro citados e esquecidos notáveis: todos "ex-futuros Pelés".

A defesa é quase inquestionável. O goleiro, já não sei dizer. Perdi a confiança no JC, simples assim. Diego Cavalieri, Fábio e Cássio, por exemplo, estão no mesmo nível dos convocados. 

O técnico? The best. Tivesse ficado desde 2002, em um projeto sério de longo prazo, para que de treinador passasse a coordenador técnico, o Parreira (cria de Zégallo) de alguém - que podia, até, vir a ser o Mano. Ou o Tite. 

Imagina Felipão e Tite em 2018? 

quarta-feira, 2 de abril de 2014

Cai-cai

Quem sabe
no banco de trás
o dia nascendo
pudéssemos bater,
Você e eu
- Meu Deus!
Nosso papinho. 

quinta-feira, 6 de março de 2014

O Samba é do Bem

O samba, em casa ou no boteco, é tocado em torno da mesa, com os músicos sentados ao redor, olhos nos olhos de quem está do lado ou à frente. 

Quando é bom, contagia sorrisos: qual outro ritmo traz tanta alegria estampada nos rostos, ritmistas inclusos? 

Quando é bom, é clássico instantâneo, já sai consagrado do quintal ou da quadra; quando já é clássico não importa a origem, o autor, a escola: impõe respeito.
 
Aliás, um senhor respeito! - ao samba antigo, às velhas-guardas, aos carnavais de outrora. O samba, neste quesito, tem em sua companhia somente a música erudita, o blues e o jazz, onde história também é identidade. 

Como diferença, samba é também identidade cultural, e muitos de seus seus bambas recebem sobrenomes patrícios (da Portela, da Mangueira, da Vila, etc) que reforçam o pertencimento a esta ou aquela comunidade - e que permanecem, quase sempre, ainda que a vida os leve a cantar/tocar em outras praças. 

O samba é do bem: não se vêem brigas nas quadras, nos bares, nos fundos de quintal; e sim velhos, adultos e crianças cantando em volta das rodas, escolas visitando umas às outras num clima cordial, os mesmos sambas que passeiam de um canto a outro levados apenas pelo quesito qualidade, aprovados pelo crivo do tempo. 

E não, o samba não morreu. Na passagem dos anéis de bamba, as novas gerações têm respeitado o pedido feito, há décadas, "ao sambista mais novo", simplesmente porque o morro "foi feito de samba, de samba pra gente cantar". E, ainda mais que isto, porque permanece, gauche, no asfalto também. 

Nos anos noventa era difícil encontrar uma boa casa de samba no Rio de Janeiro; no final da década, uma única voz foi suficiente para ressuscitar a noite da Lapa, que agonizava. A partir do sucesso de Teresa Cristina, as casas noturnas se multiplicaram no local, criando uma cena forte. Vai-se ao bairro, hoje, basicamente para se ouvir samba. 

Nos anos noventa eram raros os blocos, os bailes de salão viviam seus últimos grandes (?) momentos, o Sambódromo uma realidade tão à parte, que nesses dias de Momo, não raro, a cidade parecia (e estava) vazia. 

Hoje o Rio ferve de novo num Carnaval sem fim, que esquenta os pandeiros já em janeiro e não se cala - não consegue! - pelo menos até o domingo seguinte aos feriados. 

Numa esquina qualquer, nasce o "samba espontâneo", às vezes com instrumentos improvisados, surgido (do nada pleonástico) numa partenogênese indecifrável. As pessoas vão chegando, cantando e dançando, absortas, batucando aqui e ali a troco de nada. 
De repente uma caixinha de fósforo, inaudível na multidão que se forma, marca o tempo só por farra; aparece um tamborim de verdade, um pandeiro; um sem-teto talentoso bate lata, o menino de rua arrebenta nos passos que nunca aprendeu, nasceram com ele. A menina que chega tímida dança e encanta (a mulata do ano é loura, desta vez, não importa), o gringo sorri, o pivete e o velho catam lixo no meio dos foliões, e o Samba continua, nem agoniza nem morre, alheio a teses antropológicas, ao merchandising onipresente e aos narizes torcidos de quem nunca o viveu. 


FOTO: Roda de samba na Pedra do Sal, mais provável berço do ritmo, segunda-feira vinte e quatro de fevereiro de 2014. 

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Sochi.Ru

Você correria com a tocha acesa na mão? 

As mina pira... Olímpica!

Por que será que o Putin só faz cara de Pudin? 

Superfaturamento russo é perigoso: muito mais caro! - seria esta a pretensão petista? 

Doze bilhões de custo e ninguém se manifesta, só o ucraino doidão: "quelo ir pá Sochi! Eu quelo!" Democracia de esquerda é assim. Manifestações proibidas por lei. 

O medo do Pudim é, apesar da cara sempre fechada, armar a barraca quando as meninas mostrarem os melões! 

Black Bloc por lá é só o nome de pavilhão de penitenciária siberiana...

Sochi é quente no verão. Em cada sauna! E fria no inverno. Debaixo da máquina de neve. 

A Rússia nem é um país de verdade: uma colcha de retalhos. Tanto que se chama "Federação Russa". Uma espécie de EEUU da Eurásia. Mas tem História e Influência Cultural. 

O povo finge que não gosta dos russos mas lê Tolstoi, Dostojevski, Gogol, Tchekhov, e baba. Ouve Tschaikovski e Stravinski, e baba. Ana Akhmatova, Malevitch, Trotski: nos encantam. Pena que depois da Revolução, exceto Boris Pasternak, os talentos todos foram censurados...

Dizem que eles estão pobres, mas o óleo deles não está no pré-sal, e sim em barris. Igualzinho ao Eike. Dizem que eles são safados (assista "Salada Russa em Paris" e entenda porque eles são, assim, uns brasileiros da Eurásia), mas fazem direitinho o que se propõe fazer. Bem igual ao Brasil (acho que aqui vai ter roubalheira E vergonha, tanto na Copa quanto nos Rio Olimpics'16). Dizem que eles são bebuns, mas australianos e brasileiros não ficam atrás... Dizem que eles são mafiosos, mas é porque não conhecem o PT...

Não confunda sochi.ru com sushi cru. 

Ah! E a Izimbaieva não está grávida não! Tá gorda! (brincadeirinha)





sábado, 11 de janeiro de 2014

Eufrasio Pedroso e o Salão São José

No fim dos anos sessenta, José Eufrásio Pedroso desfez a sociedade que tinha com os irmãos em uma barbearia próxima ao açougue do sr. Orlando na Bonifácio Vilela. À procura de novo local para oferecer suas habilidades com a tesoura aos clientes, Eufrásio acabou por conversar com o sr. Oscar Arthur Bach, o Kiko dono da borracharia no "fim" da Rua Balduíno Taques - na época, o calçamento acabava por ali. 

"Olha, os caras vão abrir um bar agora, neste mês, e o prédio ao lado tem duas salas para alugar. Por que você não vem para cá?"

Mas Eufrásio não levou fé, achou "longe" e continuou sua busca. 

Não sei bem quanto tempo depois, voltaria e alugaria a tal sala, iniciando um negócio que se confunde com a história de Ponta Grossa, o Salão São José

Pelo Salão, passaram políticos e empresários importantes, em seus mais de quarenta anos de funcionamento, mas mais que isto, várias gerações de pontagrossenses que se encantaram com o profissionalismo e a gentileza da família Pedroso, em especial daquela figura discreta e ímpar conhecida simplesmente como "o Eufrásio". Ali ele fez sua escola, ensinando filhos e sobrinhos que hoje mantêm o negócio com a mesma humildade e competência. 

Quando voltei a Ponta Grossa, em 2006, foi natural voltar a cortar meu cabelo lá, reencontrar velhos amigos e manter este contato. 

Seu Eufrásio parecia o mesmo de sempre, os cabelos pretos retintos a disfarçar a idade, o papo bom e tranquilo, as mãozinhas macias que ele, orgulhosamente, dizia serem essenciais à profissão. 

Um dia, dei-lhe nova alegria ao levar-lhe meu filho Thomas para cortar a juba com ele. 

"Com este aqui, são cinco gerações dos Bach que eu atendi, Renato: seu bisavô Alexandre, seu avô Kiko, seu pai, você é agora o Thomas."

Há alguns anos, seu Eufrásio aposentou-se, morou por um tempo fora da cidade, caiu de um cavalo, adoeceu e voltou. Mas não para o Salão, que a cadeira preferida ele manteve em casa, para atender apenas grandes amigos, quando lhe apetecesse. 

Fiquei muito triste, na semana passada. Fui ao Salão depois das férias, esperando ouvir as histórias de meu amigo Edenir, pai do Sandro, sogro da Suzana Vieira, mas o que tive dele foi a triste notícia: seu Eufrásio falecera há um mês, pouco tempo depois do passamento de sua esposa.  

Com ele se vai mais um pedacinho de minha infância. Ficam excelentes lembranças, e, à família, meus sentimentos e meu muito obrigado.