quinta-feira, 25 de agosto de 2011

"Super 8", um filme de J.J. Abrams, produzido por Spielberg, 2011

Rating:★★★★
Category:Movies
Genre: Science Fiction & Fantasy

"Super 8" só não ganha cinco estrelinhas por conta da cidade em que vivo, onde só chegaram cópias dubladas, cúmulo da ignorância.

Tive que me contentar em ver o filme na tela pequena, do computador, sem legendas, daquele jeito...

Ainda assim, achei muito interessante, em vários sentidos.

Fincado no sonho dos anos 80 - obviamente edulcorados por mais de duas décadas de distanciamento crítico - da mesma forma como os primeiros filmes de Lucas e Spielberg bebiam na eterna fonte dos fifties, "Super 8" poderia não ser mais que uma "Sessão da Tarde" extemporânea, mas tem charme e mistério próprios.

Ao processar, na mesma mistura, doses igualmente generosas de "Guerra dos Mundos", "ET", "Aliens" e "Contatos Imediatos", enxerga-se ali, em vez de plágio ou pastiche, o amálgama mesmo da cultura pop; ao introduzir temas caros aos dias de hoje, como o impacto da incorporação de novos gadgets ao cotidiano, torna seu alcance universal; ao ser algo piegas e forçado em seu improvável final feliz, presta homenagem a uma ingenuidade do cinema que sempre parece impossível de se recuperar.

Até a próxima geração, pelo menos; está aí Mr. Abrams que não me deixa mentir. Com seu baú de tramas inconsequentes e brilhantes (at least diante do lamaçal de nulidades reinante em Hollywood) , J.J. já deixa sua marca em "pérolas" como "Lost", "Fringe" e este "Super 8".

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TRAILER: http://youtu.be/vpzUCA5i6zY

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Para quem curte Tolkien, há similaridades no final.

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Para quem curte S8 e congêneres, há o "filme-dentro-do-filme", após as legendas. É como meu filho sempre diz: "espera, papai, que tem mais".

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Para quem tem um lado Tarantino do ser, ou já foi rato de videoteca, recomendo outro filme-sobre-malucos-por-filmes, recomendo o "Be Kind Rewind", de Michael Gondry (2008). Leia mais em http://tiny.cc/jx1on

sexta-feira, 29 de julho de 2011

‪Jacobus van Wilpe‬‏ - YouTube


http://youtu.be/8ptEqKqz-Hk
Pequeno ensaio visual sobre a vida e a obra de Jacobus van Wilpe (Haia, Holanda, 1905 - Ponta Grossa, PR, Brasil, 1986), artista plástico e escritor.

sábado, 4 de junho de 2011

Aryclé de Castro Muniz (1928-2011)

A CADEIRA NO PENHASCO está de luto pelo falecimento de sua grande inspiradora, minha querida avó paterna Aryclé, cujo falecimento consternou a todos - seu esposo, filhos, netos, bisnetos e amigos - na noite do dia 2 de junho.

Keka, como era conhecida por todos, foi exaustivamente pranteada por todos aqueles, queridos, que visitaram a capela 3 do Cemitério Municipal de Curitiba, ontem. O dia frio, mas com muito sol, foi digno de uma despedida memorável a uma mulher singular.

Professora, Keka fez história com sua irmã Glacy, lecionando no antigo Grupo Escolar Becker e Silva, antigo educandário do bairro da Ronda, em Ponta Grossa. Lá ocupou-se de várias gerações, tornando-se inesquecível por sua capacidade, humanidade e dedicação.

Formada pedagoga já na meia-idade, pela UEPG, Dona Keka ainda teve força e disposição para cursar uma pós-graduação em Educação Especial para Deficientes, especialmente os privados da visão. Ela própria só contava com a visão de um olho, o que não a impediu de, ao longo dos anos, passar para o Braille verdadeira biblioteca, feita à mão com grande sacrifício pessoal, em um tempo em que este era um trabalho artesanal, quase sobre-humano.

Violonista de voz doce e forte; intelectual de múltiplos recursos e interesses; internauta de primeira hora (e apaixonada); mãe, avó e bisavó extremada, Keka era uma mulher absolutamente moderna

Sua vontade de viver e de estar com os seus (e eram muitos os que a amavam) sempre possibilitou reviravoltas inesperadas em seus problemas de saúde, o que torna sua partida, malgrado o peso da idade e de anos de sofrimento clínico, intensa, triste e inesperada. Ela nos acostumou mal, dizia ontem em seu velório, fez-nos acreditar que era imortal.

E é, creio eu, pois vive em cada um dos que a conheceram e amaram. Permanece como um exemplo de vida proba, útil à sociedade e aos seus, intelectualmente vibrante e produtiva. Sua amor a tudo que é vivo, sua capacidade de entender e adaptar-se às mudanças históricas, e sua profunda humanidade, ajudam-nos a prosseguir, por mais que a perda, e a saudade, sejam desde já eternas.


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Agradeço de coração, em meu nome e de minha família, a calorosa maneira com que todos os que estiveram conosco na data de ontem nos acolheram e consolaram 


E agradeço especialmente ao Sr. Francisco Muniz, meu querido avô, por todo seu carinho e dedicação à Keka e à nossa família. Na data de seu aniversário, tenho certeza de que, esteja onde estiver, minha avó festeja, junto com Seo Chiquinho e todos os que estão lá, agora, no sítio em Campina Grande do Sul, seu 83º aniversário.


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FOTO: Dona Keka em sua última visita a Ponta Grossa, com o bisneto Thomas. Chácara Igupá, fevereiro de 2011.
 

sábado, 28 de maio de 2011

Esta Celeuma em Torno de Monteiro Lobato

Monteiro Lobato (1882-1948), maior nome da literatura infantil e juvenil latinoamericana, vem sendo constantemente citado na grande imprensa (e outros meios como o político e o educacional) como RACISTA.

Para quantos de nós travaram seu primeiro contato com a literatura através deste fecundo autor, a impressão que ficou – de anos ou até décadas de “relacionamento” – é profundamente diversa.

Senão vejamos. 

No Sítio do Picapau Amarelo, vive-se entre a utopia e o conto-de-fadas, em um mundo em que as características de cada personagem contribuem tanto para o colorido da obra tanto quanto para sua mensagem subversiva. No Sítio todos são confrontados com a imagem que têm de si mesmos; examinam a fundo os vieses demográficos, “raciais” e culturais que os fazem quem são; são convidados a exercer o pensamento crítico e a não engolirem nenhuma informação “com farinha”.

Dona Benta vê seu mundo virar de pernas para o ar quando tudo à sua volta parece ganhar vida – sabugos, bonecas, porcos, burros, besouros; figuras históricas, folclóricas e mitológicas; personagens de histórias em quadrinhos e das histórias da Carochinha – e ali permanece incólume, quase blasé, em sua louca mistura de racionalismo filosófico e amor de avó que tudo abraça, compreende e acolhe.

Narizinho e Pedrinho, descartada sua baixa idade, são crianças a quem é dado o direito de serem crianças; o direito de viverem suas fantasias sem serem julgadas, e sim esclarecidas e protegidas; a oportunidade de refletirem sobre os acontecimentos históricos sem se deixar levar por desvãos ideológicos e modas passageiras.

Lobato, homem de seu tempo, descreve-o com precisão através de suas personagens – caricaturais, representativos, arquetípicos. Há um perfume de despedida e melancolia em seu texto, no entanto, como que a antecipar o fim de uma era, o ocaso de modos de pensar e viver que seriam varridos pelas conquistas tecnológicas do século XX que se estendia, promissor e ainda pela metade, pela frente. E há, mesmo na presença de termos hoje considerados “politicamente incorretos”, verdadeira preocupação documental e muita empatia no retratar: do preto-velho supersticioso e sábio (Tio Barnabé), da cozinheira inculta, fiel depositária do imaginário popular (Tia Nastácia), da solitária sinhá e seus modos aristocráticos (Dona Benta), do sábio empertigado e fútil (Visconde), encastelado nas imensas alturas de seu conhecimento; da malemolência dos empregados e matutos (que só vez por outra ganham nomes na narrativa); na falta de reação dos moradores do Arraial dos Tucanos - que viram “de tudo” naqueles anos.

E há Emília, filha bastarda dos loucos anos vinte e sua gana iconoclástica por liberdade – personagem impossível de acontecer fosse Lobato o reaça que nois é agora imposto goela abaixo por sectaristas de ocasião. Verdadeira pedra angular de toda a filosofia lobatiana, a boneca de pano põe em xeque todo conhecimento filosófico, científico e cultural estabelecidos, distendendo os limites do autor para tornar sua obra transcendente ao próprio tempo em que ela foi concebida e escrita. É Emília quem tem sempre um “por quê”, um “por que não”; quem diz que “as coisas são assim porque ela quer que sejam assim”, e tantos outros disparates mais tarde encampados pela vida moderna.

Emília é a santa padroeira da transgressão saudável, da experimentação no limite da responsabilidade, da impossibilidade transmutada em gente (ou quase). Poderia ter sido melhor explorada por modernosos e tropicalistas, que obtusamente não enxergaram seu potencial demolidor. Ou nos ajudar, agora, a falar em defesa de seu criador.

Pois nós que também fomos seus filhos renegamos veementemente a pecha de racista, ou qualquer outro “ismo” que se queira colar à sua figura, simultaneamente formadora e libertária. Nós, que lemos Lobato na mais tenra infância, que absorvemos através de sua literatura muito da brasilidade que hoje entendemos como inata, que tivemos nossos cérebros em formação esculpidos por Emília, somos melhores por isso. Passamos pela escola sem acreditar em qualquer coisa que nos falassem, pela vida sem julgar por desconhecer, pelos caminhos do espírito sem descrer pelo inusitado ou crer só porque é lógico.

Monteiro Lobato foi, sim, extremamente crítico de um país que patinava na miséria e na corrupção. Seu Jeca Tatu, revisto ainda em vida e depois maneirado (quase em oposição a seu retrato original), polido de arestas espetaculosas e visões maniqueístas, foi tentativa marcante, ainda que moderadamente equivocada, de entender os motivos de tanta coisa dar errado por aqui. Sua luta pelos livros e pelo petróleo, utopias que lhe custaram parte do sossego, da saúde, e até de sua liberdade; hoje podem parecer exageradas, dantescas, mas assim como o Jeca, tiveram sua hora, seu lugar e razões de ser.

Sua admiração pelos EUA e pelo capitalismo producente e industrial da primeira metade do século XX, ou sua “quedinha” pelas esquerdas ao final da vida, quando travava luta inglória contra o Estado Novo, mostram um nacionalista, convicto, tentando lutar o bom combate, pinçando aqui e ali o melhor de várias experiências e opondo-se, sempre, ao terror de Estado. Seu interesse pela eugenia, ou suas considerações nem sempre benevolentes sobre as características dos povos deste ou de outro rincão do Brasil, mostram, contudo, a espessura de sua “cota de malha”: o emaranhado de vieses culturais dos quais, até aos gênios e intelectuais, pode ser difícil se despir.  

As cartas publicadas na Bravo são cartas pessoais, escritas em um período em que as ideologias explodiam como supernovas em um mundo em constante ebulição, mantidas em sigilo por tanto tempo, e que agora aparecem sem que sejam citadas as suas origens, ou a intenção de quem as dá a conhecer. Os excertos publicados pela Revista Bravo são citados fora de qualquer contexto, sem o apoio de um texto completo onde façam sentido; mesmo os fac-similes exibidos na internet estão censurados, não podendo, desta forma, serem sequer analisados mais aprofundadamente. O que um homem diz a um interlocutor em uma missiva privada às vezes pode ser bem diferente do que ele costumeiramente fala e defende, sem que isto signifique uma opinião consolidada, lustrada e pronta para vir a público, ou até mesmo existirem apenas como desabafo

Em um universo de milhares de páginas escritas, lidas e relidas milhares de vezes por dia em boa parte do mundo, parece-me muito suspeita a insistência no tema deste suposto racismo de Lobato em um ano em que a indústria cultural corre atrás do prejuízo (décadas de descaso com a obra por divergências entre a família e a editora) no exíguo prazo que expira em 2018, quando tudo que ele escreveu passa a ser de domínio público. Como dizem meus alunos militantes, por ora fica difícil adivinhar qual é o pensamento hegemônico.

quarta-feira, 25 de maio de 2011

sábado, 21 de maio de 2011

Meu gosto mudou ou estamos todos ouvindo mais música brasileira?

"Davam-nos rótulos

Todos em vão

Éramos únicos

Na geração

Éramos nós dessa vez"

(Marcelo Jeneci/Luiz Tati)


Meu gosto mudou ou estamos todos ouvindo mais música brasileira?

Interessante. Em tempos de internet a laser – opa, será mesmo? ou é como a videolaparoscopia, que de “laser” não tem nada? – “a” cabo, via satélite, no celular, no tablet e sabe-se lá onde mais, parece-me que, finalmente, voltamos a ouvir música brasileira.

E aí vai um “nada contra” à geração anterior, aquela que não (eu) ouvia; apenas nunca me convenceu. Senão vejamos:

O sertanejo urbano dos anos 80 e 90, derivativo do brega, filho da Jovem Guarda mais rastolha (ou assim considerada pela intelligentsia da época), herdeiro do que há mais característico em um dos maiores ídolos das empregadas domésticas de todos os tempos, o Rei Roberto Carlos; este "sertanejo" nada tinha a (me) acrescentar. Cresci ouvindo o (sertanejo) legítimo (dos Alvarengas e Tinocos e Nhás Belarminas), a que não tínhamos que acrescentar o aposto “de raiz”, porque pleonástico; e sou fã do que ouvia no rádio da borracharia de meu pai e da barbearia do vizinho, de Jerry Adriani (nosso Elvis) a Odair José, Márcio Greyck e – meu primeiro ídolo, Moacir Franco. Do Rei nem preciso falar, visto que cantei “A Montanha” à guisa de segundas palavras na vida. Por isso sempre considerei a cabocrada um pastiche só; apenas recentemente prestei atenção às belas vozes de Leonardo e dos Xororós, assisti ao profissionalismo dos que dormiram na praça, os Marrone, e ouvi, aqui e ali, alguma qualidade. De qualquer modo a eterna temática “de corno” (“liga pra mim, não liga pra ele”, “ela me deixou”, “agora tá feliz com outro”, etc...) me aterroriza e deprime.

Do axé não herdei quase nenhuma lembrança: gosto de Carnaval, mas mais do Rio que da Bahia; gosto de samba, e aquilo é samba-rock. Gosto de alegria, mas não o ano inteiro. Quem viu o filme do Bianchi (“Cronicamente Inviável”), sabe do que eu estou falando.

E por fim, correndo o risco de me tornar repetitivo, gosto tanto de samba que quando tiraram o contraponto do ritmo, os pagodeiros se tornaram assassinos em minha humilde – e assustada – visão. Cadê o suingue, o sambalanço? É tudo tão certinho e quadrado que não cativa, não “quebra” o vestíbulo nem o quadril. Já repararam que dá para tocar qualquer coisa em ritmo de pagode?

O que eu quero dizer é que no Brasil certos fatos foram quase contemporâneos, arrebentando com toda uma cultura popular: a derrocada do roque brasileiro e o fim do rádio de qualidade (evento similar ao fim do livro, que está próximo).

Nos anos 80, se foram rádios alternativas – como a icônica Fluminense FM, no Rio – que desencadearam a primeira onda do roque nacional, foram as redes de rádio poderosas, como a Cidade e a Transamérica, que o mantiveram no mercado por anos a fio. Havia espaço para rádios de jazz, rádios para “velhos”, rádios de MPB, rádios rock, rádios bregas e até mesmo as religiosas, que desabrocharam sua segunda onda (a evangélica) na mesma época. Eram estruturas verdadeiramente integradas á comunidade, imersas no cotidiano das cidades (vide a Rádio Mundial, em Ponta Grossa) e que refletiam, bem como “faziam” o gosto popular.

Nos anos 90 parece que todo mundo emburreceu – ou pelo menos era assim que meu preconceito de jovem “adulto jovem” me fazia enxergar. O roque sumiu (mais por falta de qualidade que de apoio), e o país parecia querer viver um eterno Carnaval: os gozos (axé music) e as dores (breganejas) do amor esquemático, politicamente correto e temeroso. 

Veio o Collor, morreu o cinema, morreu a cultura, morreram os intelectuais (é difícil achar o que dizer se não for “contra alguém”, isso o fim da ditadura nos ensinou); morreram até a História e a Canção. Perdemos a fé na bola, na ginga, na malemolência do brasileiro.  Que década triste, aquela, que começou com as balas traçantes em Bagdá e só foi atravessada, a duras penas, pelos que ouviram Marisa e Gil.

Muito tempo se passaria até que Ronaldo – aquele, que não desiste nunca, quase um Gérson - nos devolvesse a autoestima em uma propaganda de televisão.

No meio-tempo, perdemos os melhores – ou pelo menos os que falavam mais alto, calavam mais fundo: Cazuza e o Russo. Herbert quase se foi, e pensava muito nele quando ia passar visita no CopaD’Or, e sabia que ele estava ali, na UTI a poucos andares de algum paciente meu. Outros ídolos perderam a voz, como a já citada Fluminense e a curitibana Estação Primeira FM.

Muita gente boa envelheceu, vieram os acústicos, as retomadas, as reuniões e até aqueles que voltaram sem nunca ter ido embora.

Veio o Rock in Rio – aquele, no Rio, lembra?, o último – e vimos que roque mesmo só Cassia, a dupla Zé e Elba e o Moska, que fez o (meu) melhor show do festival na tenda alternativa e se consagrou (pelo menos perante quem teve  a sorte de assistir seu power trio com Montarroyos e Suzano).

E aos poucos voltou o cinema, o samba, a Lapa carioca, e até a combalida MPB – transmutada em grande barraca de praia a albergar o indefinível, o inclassificável e a sempre salutar mixórdia.

Novos sambistas como Teresa Cristina e Roberta Sá, vetustos roqueiros como o Arnaldo e ídolos de todas as gerações como o sempre generoso Zé Ramalho; novos roqueiros como os Garotas Suecas, o Nevilton (aqui de Umuarama, como paranaense convém frisar) e o monno; grandes damas sob novas alcunhas como a Partimpim, e/ou rodeadas de brinquedos (como a Takai); novos nomes, consistentes e plurais, como a Tulipa, o Jeneci, o Fred Martins; e até novidadeiras como a SandyLeah e a Carolina, a Gadu e a Nina, conseguem preencher mais tempo em meu pendrive que tudo de bom que vem de fora (de Black Keys  a Bruno Mars, passando pelo B.O.B., para ficar só na letra bê).

Há uma pujança na nova geração que influencia até os mais velhos: veja o bem que faz ao desde sempre genial Paulinho Moska o contato incessante com seus pares de profissão, naquele programa de tevê (“Zoombido”, Canal Brasil) que é o melhor “raú-xis” (com trocadilho) desta moçada que está aí, dos 8 aos 80 anos, fazendo música brasileira, no Brasil. Ou o 3º (4º?) renascimento pop do Arnaldo Antunes, regado a fartas doses do acordeom do Marcelo Jeneci. Ou a força de canções como as do Marcelo Camelo, que recusou o título de porta-voz em benefício da (boa) música.

Além de simples, decifrável; amistosa, amável; a nova MPB é fruto do amadurecimento de uma técnica de gestão de influências, como já nos ensinaram a bossa, o tropicalismo e o roque, mas vai um passo além, ao se desvencilhar um pouco dessas mesmas influências em direção a uma “cara” e temática próprias. Há personalidade aqui e ali, ainda que disto não se faça um “movimento” em direção a coisa alguma.

Mas que requebra, requebra - a tal da Música. Popular. Brasileira.

 

* * * 


É claro que a maioria ouve o que quiser, diria um velho amigo, em uma frase que não sei se é sábia ou pura ironia. E que o rádio é um indústria de milhões; que a televisão e o cinema ajudam a vender discos (por quanto tempo não sabemos); que o fortalecimento da economia impulsiona a venda de bens de consumo para todas as classes, mas especialmente a C e a D (o que não precisa nem pode explicar porque tem de ser necessariamente de mau-gosto o que se ouve por aí); que todo mundo baixa o que quer da internet, e descarta quase sempre à primeira audição; que morreu o vinil, o CD e a canção. E tantas outras informações contraditórias. 


Mas digo e repito: que voz verdadeiramente brasileira se levanta nesse momento, nesta geração!


Que nossos ouvidos permaneçam abertos!

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Qual o melhor retrato?

Dos retratos acima, qual é o melhor em sua opinião? Comente sua resposta.

o da esquerda
 
 1

o da direita
 
 4

terça-feira, 10 de maio de 2011

A Game of Thrones / Guerra dos Tronos - livro & seriado de televisão

Li sobre a série na Wikipedia, assim que saíram os primeiros teasers na HBO. Depois li um pouco mais na veja, no vôo para o Rio, mês passado, quando já procurava o livro. Que acabei comprando em Curitiba. Só assisti aos primeiros episódios quando a leitura já me dava uma cabeça de vantagem.

Assim aprecio toda a história de A Game of Thrones de uma maneira pouco usual, para mim – fizera parecido com o Lord of the Rings, quando terminei de ler A Sociedade do Anel pouco antes da estréia do primeiro capítulo da trilogia nos cinemas. E acho muito interessante, como na Terra Média, mesclar a Westeros que imagino com a que os designers, engenheiros e artesãos da tevê construíram nos sets de filmagem.

Assisto maravilhado o primoroso trabalho de reconstituição não-histórica, por assim dizer, que reflete com minúcia as induções visuais do texto. Pena não ter cheiro e gosto que - seja nas festas, na grande muralha polar, ou nas justas - tudo parece transbordar de vida e detalhes.

Vibrante, alegórico e racional, colorido e elegante o texto de Mr. Martin já era desde sempre. Profissional oriundo da indústria cinematográfica, o autor – e produtor da série – trouxe consigo a economia e a concisão necessárias para criar um texto que flui com tanta naturalidade. Há instantes em que ele nos põe verdadeiramente imersos naquele universo, crendo na existência daquelas pessoas (não meros “personagens”), torcendo e sofrendo junto, impactados por sua exemplar humanidade e pelo conteúdo profundamente emocional de suas histórias.

(Há muitos anos não pegava pela frente um livro que não pudesse, não conseguisse parar de ler. Que me roubasse do computador, da internet, da família e da televisão, não necessariamente nesta ordem. Este é assim.)

Na série, além do já citado apuro estético, a escolha do elenco se mostra muito acertada, com inúmeras boas interpretações, e pelo menos um show: o das crianças e dos lobos. Com os finais de cada capítulo focados nos filhos de Eddard Stark (o fantástico Sean Bean), o inverno parece estar mesmo chegando.Aguardamos o medo, o terror, e toda a ação que está por vir, com ansiedade crescente.

São ambos, livro e série de televisão, diversão e emoção garantida, para quem gosta de histórias de reis e cavaleiros, reinos e rangers, monstros e damas. Eu virei fã.

domingo, 1 de maio de 2011

Tio Vânia em Ponta Grossa

Tio Vânia em Ponta Grossa


"Yes, we shall live, Uncle Vanya. We shall live through the long procession

"Sim, nós devemos viver, Tio Vânia. Nós devemos viver através do longo processo

of days before us, and through the long evenings;

dos dias ante nós, e através de longas noites

we shall patiently bear the trials that fate imposes on us;

nós devemos suportar pacientemente os julgamentos que o destino nos impõe

we shall work for others without rest, both now and when we are old;

nós devemos trabalhar para os outros sem descanso, ,agora e quando velhos,

and when our last hour comes we shall meet it humbly,

e quando nossa última hora chegar, devemos encontrá-la humildemente,

and there, beyond the grave, we shall say that we have suffered and wept,

e lá, além-túmulo, nós devemos dizer que sofremos e choramos

that our life was bitter,

que nossa vida foi amarga,

and God will have pity on us.

que Deus tenha piedade de nós.

Ah, then dear, dear Uncle, we shall see that bright and beautiful life;

Ah, então, querido Tio, nós iremos ver que brilhante e bela vida

we shall rejoice and look back upon our sorrow here;

Nós devemos exultar e procurar entre nosso pesar, aqui;

a tender smile—and—we shall rest.

Um sorriso terno – e – nós devemos descansar.

I have faith, Uncle, fervent, passionate faith.

Eu tenho fé, tio; fervent, apaixonada fé.

[SONIA kneels down before her uncle and lays her head on his hands. She speaks ina weary voice]

[SONIA se ajoelha ante seu tio e repousa a cabeça nas mãos dele. Ela fala em uma voz cansada]

We shall rest.

Nós devemos descansar.

[TELEGIN plays softly on the guitar]

[TELEGIN toca suavemente o violão]

We shall rest. We shall hear the angels. We shall see heaven shining like a jewel.

Nós devemos descansar. Nós devemos ouvir os anjos. Nós devemos ver o céu brilhando como uma joia.

We shall see all evil and all our pain sink away in the great compassion that shall enfold the world.

Nós devemos ver todo mal e toda nossa dor naufragar na grande compaixão com que devemos abraçar o mundo.

Our life will be as peaceful and tender and sweet as a caress.

Nossa vida será tão pacífica e suave e doce como uma carícia.

I have faith; I have faith.

Eu tenho fé; eu tenho fé.

[She wipes away her tears]

[Ela enxuga suas próprias lágrimas]

My poor, poor Uncle Vanya, you are crying!

Meu pobre, pobre Tio Vânia, você está chorando!

[Weeping]

[Chorando]

You have never known what happiness was, but wait, Uncle Vanya,

wait! We shall rest.

Você soube o que era felicidade, mas espere, Tio Vânia. Espere!  Nós devemos descansar.

[She embraces him]

Ela o abraça.

We shall rest.

Nós devemos descansar.

[TheWATCHMAN’S rattle is heard in the garden; TELEGIN

plays softly; MME. VOITSKAYA writes something on the

margin of her pamphlet; MARINA knits her stocking]

[O chocalho do vigia é ouvido no jardim; TELEGIN toca suavemente; Madame VOITSKAYA escreve a algo na margem de seu jornal; MARINA cerze sua meia]

We shall rest."

Nós devemos descansar."


* * *

[“Uncle Vanya”, by Anton Chekhov is a landmark on my way of resembling life. And this is one of the most touching finales I have ever had chance to find, giving closure and expectation at the very same level to readers or spectators. Translated from English, based on the Coradella Collegiate Bookshelf translation, 2004 ]

[“Tio Vânia, de Anton Chekhov é uma visão importante em minha busca por assemelhar-me à vida. E este é um dos mais tocantes finales que eu tive chance de encontrar, oferecendo conclusão e expectativa a um mesmo nível tanto para leitores como espectadores. Do Inglês, baseado na tradução do Coradella Collegiate Bookshelf, 2004 ]

domingo, 10 de abril de 2011

Sérgio Bianchi: um cineasta imprescindível e seu melhor filme

Depois de filmes marcantes, mas algo esquemáticos ou simplistas em sua postura ultra-crítica, meu primo Sérgio Bianchi parece ter acertado o tom: “Os Inquilinos”, em cartaz no Canal Brasil, é de longe seu melhor filme.

Seco, enxuto, direto e muito bem editado e finalizado; contando uma história que começa propositalmente tímida e cresce em profundidade e tensão até o clímax vigoroso e bem executado, o filme merece bem mais atenção do que recebeu de crítica e público desde seu lançamento.

Motivos para isto? Posso dar três.

Para começo de história se trata de um thriller, estilo pouco comum no cinema brasileiro. E umthriller que funciona ao estabelecer-se devagar, revogando e reiterando, a um só tempo, os clichês do gênero – coisa que a trilha sonora incidental, perfeitamente adequada, só faz corroborar.

É cinema-verdade, como me parece que o Sérgio sempre objetivou fazer, hábil que é em retratar o cotidiano compatriota de maneira quase fotográfica, colocando-nos dentro da casa (e da cabeça, e se precisar de outros locais menos nobres) de brasileiros comuns, que levam vidas comuns e sem graça - o exato oposto do que se poderia esperar de um cinema de entretenimento.

E é mais do mesmo, no melhor sentido da coisa, mais do melhor e do pior que só o Bianchi faz no país, com o dedo (e a câmera) enfiado nas feridas abertas de uma sociedade em eterna crise demagógica. É um cinema, mais que útil, necessário, honesto e cruel, que dá orgulho de ser brasileiro tão somente porque temos alguém que filma assim, sem meias palavras, sem querer agradar a ninguém; ofendendo, se for preciso, a tudo e a todos com sua argúcia crítica demolidora.

“Os Inquilinos”, tendo a São Paulo dos eventos teleguiados pelo PCC como pano de fundo (em 2001? Em 2006?), explicita como a violência se instala no cotidiano de pessoas pacatas e trabalhadoras, contaminando suas mentes e corações e tornando (cronicamente) inviável uma volta a estados anteriores de “pureza” ou “paz”. Mostra, em parte, como somos todos convidados pelo sistema a aceitar a violência e a corrupção (e o que mais nos puserem goela abaixo), a tratar com elas, até mesmo usá-las em benefício próprio, como reflexo do hedonismo e individualismo onipresentes. Apesar disto, o roteiro impecável do diretor (em parceria com Beatriz Bracher) jamais escorrega para o panfletário, possibilitando que diálogos de natureza política, com forte cunho social, façam parte da trama e enriqueçam o conhecimento das personagens – ou seja, todas as filosofadas, desta vez, estão a serviço da história.

Parabéns, primo – se é que posso lhe chamar assim, visto que na verdade meu avô é que era primo de seu pai. 

Cresci sendo fotografado por este, o ícone da fotografia paranaense Rauly Bianchi, no extinto estúdio da Rua Sete de Setembro em Ponta Grossa. Quanto a você, acompanho sua trajetória desde que corri para assistir “Romance” em uma tarde chuvosa no Cine Ritz, ali na Rua das Flores, idos de 1988, e confesso que jamais fiquei imune à sua verve e inteligência. Mas desta vez posso afirmar, sem nenhum nepotismo, que seu filme me pegou na veia. Vai direto para a lista de meus favoritos.


Leia mais em:

http://www.omelete.com.br/cinema/critica-os-inquilinos/

http://oglobo.globo.com/cultura/festivaldoRio2009/mat/2009/09/30/os-inquilinos-critica-de-sergio-bianchi-intolerancia-surge-como-1-candidato-melhor-roteiro-767843820.asp

http://www.adorocinema.com/filmes/os-inquilinos/

http://cinefilosofia.wordpress.com/category/sergio-bianchi/

http://pt.wikipedia.org/wiki/S%C3%A9rgio_Bianchi

http://www.imdb.com/title/tt1522232/

sábado, 2 de abril de 2011

"Sabão de Cinza e Charque", por Jacobus van Wilpe

Fregueses da Colônia são bem atendidos por nós: pelo mesmo preço podem escolher o que querem. Carne é carne – mignon, bife, bochecha e pescoço vão pelo mesmo preço para o charque (...)

Damos pedacinhos de fígado e rim, de presente. Estas glândulas não servem para o charque, porque mesmo salgados e secos ainda ficam, de maneira um pouco nojenta, úmidos e pegajosos.

Para os colonizadores e o pessoal da redondeza, a charqueada é positivamente uma bênção. As pessoas são melhor atendidas por nós que na mais fina loja de Haia. Os granjeiros, ultimamente, tem aparência mais saudável e reforçada que durante a era do doce de abóbora e mingau de leitelho azedo. É bem compreensível que quando abatemos muito há mais rabos e línguas que lares na Colônia. Aliás, rabadas também são proibidas como charque, além do mais são difíceis demais de desossar e seriam reconhecidas imediatamente. (...)

Igualmente a enorme quantidade de ossos de mocotó para sopa não consegue ser consumido pela Colônia. Esqueletos completos, chamados por aqui de madeirames, são vendidos aos caboclos e turmeiros da vizinhança.

Os ossos são picados bem pequenos e fervidos em grandes tachos e latas de querosene. A gordura é retirada, e conforme uma receita antiga, com cinzas em lugar de soda, transformada em cheiroso sabão de cinza. (...)

(...) Depois da receita do sabão de cinza, a do charque.

A carne é cortada em longas finas tiras; permanece alguns dias em um recipiente com salmoura; depois é bem esfregada com sal e empilhada solidamente. Após alguns dias é examinada minuciosamente à procura de eventuais manchinhas ou vermes e como último testamento é secada em armações especiais sobre a cerca da mangueira.

Tudo junto é uma história salgada com a qual nossas mãos saem muito judiadas. Por esfregar muito sal para preparar a carne, formam-se estranhas manchas brancas sob a nossa pele. Secadas ao sol assemelham-se vagamente ao nosso produto. No Farwest, chamar-me-iam “Old Charqueman”.

Sem perceber, publico aqui duas velhas receitas interessantes.

(“No Comércio III – O Matadouro, 1926”, no livro “Lembranças  da Juventude” de Jacobus van Wilpe, 1905-1986)



* * * 



No final de semana do Centenário de Carambeí, minha homenagem aos pioneiros e antepassados.

FOTO: Loja Batavo na Avenida Vicente Machado, em Ponta Grossa, anos 1940. Ao centro, o patriarca Jan Hendrik van Wilpe.


quarta-feira, 30 de março de 2011

"Bruna Surfistinha", Marcus Baldini, Brasil, 2011

Rating:★★★★
Category:Movies
Genre: Drama
Bruna Surfistinha, o filme, se sustenta no interesse mórbido – e não me venham dizer que é intelectual – que todos temos pela assim chamada “mais antiga profissão do mundo”. Mas transcende no caráter sensível do raciocínio da personagem, muito bem desenvolvido, tanto pelo roteiro quanto pela interpretação (magistral) de Deborah Secco.

Ao dissecar a trajetória da garota de classe média que opta pelo caminho da prostituição, o filme acaba escancarando, como Bruna em seu blogue, à época, aspectos pouco aludidos de nossa sociedade. O cotidiano da profissão, como queria Virginia Woolf, descrito com precisão: amargo porque não poderia ser diferente, doce porque o olhar da protagonista é compassivo, evita a escatologia na máxima medida cabível.

Ah! A trilha sonora, com o Radiohead à frente, é improvável e causa estranheza de início, mas de tão interessante que é, acaba sendo parte da alma de um filme muito melhor do que eu esperava.

sábado, 5 de março de 2011

Born Of Hope, by Kate Madison, 2009

Rating:
Category:Movies
Genre: Action & Adventure
"2907 Nasce Gilraen, mãe de Aragorn II.
2929 Arathorn, filho de Arador dos dunedáin, casa-se com Gilraen.
2930 Arador morto por trolls (...)
2931 Aragorn II, filho de Arathorn, nasce no primeiro dia de março.
2933 Arathorn II é morto. Gilraen leva Aragorn para Imladris. Elrond o recebe como filho adotivo e lhe dá o nome de Estel (Esperança); seus antepassados não são revelados."

Baseado nessas poucas frases d’Oconto dos Anos (apêndice B do Senhor dos Anéis), BOH é mais que (mais um) filme da franquia – até porque foi realizado sem qualquer relação com o espólio do escritor, Peter Jackson ou Hollywood. BOH é um fan movie, feito com atores voluntários, as economias de uma vida (no caso, da diretora) e muito talento. Acerta até no nome, sem nunca citar o apelido que Aragorn receberia, mais tarde, do rei élfico.

É um prequel à história contada na trilogia, e relata os feitos de Arathorn, pai de Aragorn, o Rei reempossado após a Guerra do Anel. Filmado na Inglaterra em locações belíssimas, faz par com “The Hunt For Gollum” (2010), já resenhado aqui. Mas é muito melhor, tanto em termos cinematográficos quanto em relação a roteiro, direção de arte, figurinos e interpretações.

Emocionante e inesquecível para nós fãs de Tolkien, o filme (de 1h8min) está disponível exclusivamente em www.bornofhope.com, onde já teve mais de dois milhões de espectadores desde dezembro de 2009. Não deixe de assistir!

Born Of Hope


http://www.bornofhope.com
Link para o melhor filme de Tolkien depois do Senhor dos Anéis!