"Davam-nos rótulos
Todos em vão
Éramos únicos
Na geração
Éramos nós dessa vez"
(Marcelo Jeneci/Luiz Tati)
Meu gosto mudou ou estamos todos ouvindo mais música brasileira?
Interessante. Em tempos de internet a laser – opa, será mesmo? ou é como a videolaparoscopia, que de “laser” não tem nada? – “a” cabo, via satélite, no celular, no tablet e sabe-se lá onde mais, parece-me que, finalmente, voltamos a ouvir música brasileira.
E aí vai um “nada contra” à geração anterior, aquela que não (eu) ouvia; apenas nunca me convenceu. Senão vejamos:
O sertanejo urbano dos anos 80 e 90, derivativo do brega, filho da Jovem Guarda mais rastolha (ou assim considerada pela intelligentsia da época), herdeiro do que há mais característico em um dos maiores ídolos das empregadas domésticas de todos os tempos, o Rei Roberto Carlos; este "sertanejo" nada tinha a (me) acrescentar. Cresci ouvindo o (sertanejo) legítimo (dos Alvarengas e Tinocos e Nhás Belarminas), a que não tínhamos que acrescentar o aposto “de raiz”, porque pleonástico; e sou fã do que ouvia no rádio da borracharia de meu pai e da barbearia do vizinho, de Jerry Adriani (nosso Elvis) a Odair José, Márcio Greyck e – meu primeiro ídolo, Moacir Franco. Do Rei nem preciso falar, visto que cantei “A Montanha” à guisa de segundas palavras na vida. Por isso sempre considerei a cabocrada um pastiche só; apenas recentemente prestei atenção às belas vozes de Leonardo e dos Xororós, assisti ao profissionalismo dos que dormiram na praça, os Marrone, e ouvi, aqui e ali, alguma qualidade. De qualquer modo a eterna temática “de corno” (“liga pra mim, não liga pra ele”, “ela me deixou”, “agora tá feliz com outro”, etc...) me aterroriza e deprime.
Do axé não herdei quase nenhuma lembrança: gosto de Carnaval, mas mais do Rio que da Bahia; gosto de samba, e aquilo é samba-rock. Gosto de alegria, mas não o ano inteiro. Quem viu o filme do Bianchi (“Cronicamente Inviável”), sabe do que eu estou falando.
E por fim, correndo o risco de me tornar repetitivo, gosto tanto de samba que quando tiraram o contraponto do ritmo, os pagodeiros se tornaram assassinos em minha humilde – e assustada – visão. Cadê o suingue, o sambalanço? É tudo tão certinho e quadrado que não cativa, não “quebra” o vestíbulo nem o quadril. Já repararam que dá para tocar qualquer coisa em ritmo de pagode?
O que eu quero dizer é que no Brasil certos fatos foram quase contemporâneos, arrebentando com toda uma cultura popular: a derrocada do roque brasileiro e o fim do rádio de qualidade (evento similar ao fim do livro, que está próximo).
Nos anos 80, se foram rádios alternativas – como a icônica Fluminense FM, no Rio – que desencadearam a primeira onda do roque nacional, foram as redes de rádio poderosas, como a Cidade e a Transamérica, que o mantiveram no mercado por anos a fio. Havia espaço para rádios de jazz, rádios para “velhos”, rádios de MPB, rádios rock, rádios bregas e até mesmo as religiosas, que desabrocharam sua segunda onda (a evangélica) na mesma época. Eram estruturas verdadeiramente integradas á comunidade, imersas no cotidiano das cidades (vide a Rádio Mundial, em Ponta Grossa) e que refletiam, bem como “faziam” o gosto popular.
Nos anos 90 parece que todo mundo emburreceu – ou pelo menos era assim que meu preconceito de jovem “adulto jovem” me fazia enxergar. O roque sumiu (mais por falta de qualidade que de apoio), e o país parecia querer viver um eterno Carnaval: os gozos (axé music) e as dores (breganejas) do amor esquemático, politicamente correto e temeroso.
Veio o Collor, morreu o cinema, morreu a cultura, morreram os intelectuais (é difícil achar o que dizer se não for “contra alguém”, isso o fim da ditadura nos ensinou); morreram até a História e a Canção. Perdemos a fé na bola, na ginga, na malemolência do brasileiro. Que década triste, aquela, que começou com as balas traçantes em Bagdá e só foi atravessada, a duras penas, pelos que ouviram Marisa e Gil.
Muito tempo se passaria até que Ronaldo – aquele, que não desiste nunca, quase um Gérson - nos devolvesse a autoestima em uma propaganda de televisão.
No meio-tempo, perdemos os melhores – ou pelo menos os que falavam mais alto, calavam mais fundo: Cazuza e o Russo. Herbert quase se foi, e pensava muito nele quando ia passar visita no CopaD’Or, e sabia que ele estava ali, na UTI a poucos andares de algum paciente meu. Outros ídolos perderam a voz, como a já citada Fluminense e a curitibana Estação Primeira FM.
Muita gente boa envelheceu, vieram os acústicos, as retomadas, as reuniões e até aqueles que voltaram sem nunca ter ido embora.
Veio o Rock in Rio – aquele, no Rio, lembra?, o último – e vimos que roque mesmo só Cassia, a dupla Zé e Elba e o Moska, que fez o (meu) melhor show do festival na tenda alternativa e se consagrou (pelo menos perante quem teve a sorte de assistir seu power trio com Montarroyos e Suzano).
E aos poucos voltou o cinema, o samba, a Lapa carioca, e até a combalida MPB – transmutada em grande barraca de praia a albergar o indefinível, o inclassificável e a sempre salutar mixórdia.
Novos sambistas como Teresa Cristina e Roberta Sá, vetustos roqueiros como o Arnaldo e ídolos de todas as gerações como o sempre generoso Zé Ramalho; novos roqueiros como os Garotas Suecas, o Nevilton (aqui de Umuarama, como paranaense convém frisar) e o monno; grandes damas sob novas alcunhas como a Partimpim, e/ou rodeadas de brinquedos (como a Takai); novos nomes, consistentes e plurais, como a Tulipa, o Jeneci, o Fred Martins; e até novidadeiras como a SandyLeah e a Carolina, a Gadu e a Nina, conseguem preencher mais tempo em meu pendrive que tudo de bom que vem de fora (de Black Keys a Bruno Mars, passando pelo B.O.B., para ficar só na letra bê).
Há uma pujança na nova geração que influencia até os mais velhos: veja o bem que faz ao desde sempre genial Paulinho Moska o contato incessante com seus pares de profissão, naquele programa de tevê (“Zoombido”, Canal Brasil) que é o melhor “raú-xis” (com trocadilho) desta moçada que está aí, dos 8 aos 80 anos, fazendo música brasileira, no Brasil. Ou o 3º (4º?) renascimento pop do Arnaldo Antunes, regado a fartas doses do acordeom do Marcelo Jeneci. Ou a força de canções como as do Marcelo Camelo, que recusou o título de porta-voz em benefício da (boa) música.
Além de simples, decifrável; amistosa, amável; a nova MPB é fruto do amadurecimento de uma técnica de gestão de influências, como já nos ensinaram a bossa, o tropicalismo e o roque, mas vai um passo além, ao se desvencilhar um pouco dessas mesmas influências em direção a uma “cara” e temática próprias. Há personalidade aqui e ali, ainda que disto não se faça um “movimento” em direção a coisa alguma.
Mas que requebra, requebra - a tal da Música. Popular. Brasileira.
* * *
É claro que a maioria ouve o que quiser, diria um velho amigo, em uma frase que não sei se é sábia ou pura ironia. E que o rádio é um indústria de milhões; que a televisão e o cinema ajudam a vender discos (por quanto tempo não sabemos); que o fortalecimento da economia impulsiona a venda de bens de consumo para todas as classes, mas especialmente a C e a D (o que não precisa nem pode explicar porque tem de ser necessariamente de mau-gosto o que se ouve por aí); que todo mundo baixa o que quer da internet, e descarta quase sempre à primeira audição; que morreu o vinil, o CD e a canção. E tantas outras informações contraditórias.
Mas digo e repito: que voz verdadeiramente brasileira se levanta nesse momento, nesta geração!
Que nossos ouvidos permaneçam abertos!
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